O viajante literário em Londres 5: Dickens, homem de seu tempo

Chegamos a Dickens no meu turismo literário. Fã incondicional, vou falar muito sobre ele, incontido e reverente. Dickens é um grande mestre, grande entre os grandes. Das casas em que viveu, em Londres, a mais referente é 48 Doughty Street, em Camden, onde hoje se encontra o Charles Dickens Museum. Fácil chegar, entrar, ver, pensar…

Charles Dickens é geralmente associado à era vitoriana mas, tecnicamente falando, é anterior a ela, pois nasceu em 1812 e Vitória só chegou ao trono em 1837. Ou seja, Dickens viveu 25 anos, quase a metade da sua vida, sem ser vitoriano. Entendemos o que as pessoas querem dizer: é que Dickens representa, como ninguém, a Londres do século XIX e da segunda revolução industrial.

Mas, vejam; Dickens, quando pensava sobre si mesmo, sobre o que era sua literatura, via-se como um herdeiro dos romancistas ingleses do século XVIII, como Defoe, Fielfing, Goldsmith, autores que ele amava.

Mas Dickens é um escritor do seu tempo e transcende essas epocalidades. Nem todo os escritores são tão contemporâneos de sua época e nem todos dão, tão bem, a margem do seu contemporâneo.

Hoje em dia é mais fácil tentar inserir Dickens da era vitoriana, certo, mas penso que houve um tempo em que foi mais fácil incluir a rainha Vitória na contemporaneidade dickensiana…

Isso porque Dickens foi lido e amado pelo conjunto da sociedade britânica, que se reconheceu nela como poucas sociedades se reconheceram, em sua época, em alguma literatura. Nosso autor agradava à classe trabalhadora porque denunciava as condições miseráveis em que viviam. E agradava aos burgueses, porque sabia mostrar a sua “humanidade” e, assim, estabelecia um vínculo com eles. Isso dito, entende-se porque Dickens foi um escritor extremamente popular – provavelmente o mais lido no país no século XIX. Todo mundo o lia (ou escutava): do analfabeto, presente nas inúmeras leituras públicas da sua obra, à rainha Vitória, justamente e ninguém menos, sua fã incondicional.

Sim, e também Marx, que foi um leitor atento de Dickens, considerando que sua obra trazia exemplos e elementos fundamentais para entender o capitalismo. Com efeito, Dickens via a ficção na realidade, fazendo com que a observação se transformasse em processo romanesco com grande dinâmica, e nem todos os autores fazem isso. E ainda cabe considerar a imensa empatia dele pelos desviantes, o que fez com que fizesse descrições efetivamente etnográficas.

Marx, pois é. Da rainha Vitória a Marx. Ah, e Dostoievski também.

Sabem qual foi a primeira pergunta que esse grande autor russo fez, quando saiu da prisão?

“Tem um novo Dickens?”

Nesse aspecto da popularidade, está bem a frente de Balzac – que mencionei em outra crônica. Não que Balzac não fosse popular, mas de fato não era tão popular como Dickens. Se há um paralelo na literatura francesa, em termos de popularidade, certamente é Dumas.

E o que eu falava acima sobre sua contemporaneidade tem a ver, provavelmente, com a sensibilidade de Dickens para olhar para sua própria vida, sensibilizar-se sem autocomiseração e transformar isso em literatura.

Dickens foi capaz de descrever todos os estratos sociais, primeiramente, porque teve experiência de todos eles, da sua classe média de origem à pobreza e, dela, à riqueza. Certo, era um grande andarilho de Londres e de seus arredores e um grande curioso, mas tudo era mediado pela sua própria experiência de mundo.

Por vezes trágica…

Seu pai foi um pequeno funcionário da Marinha, o que permitia à família uma condição de classe média. Gastava um pouco mais do que ganhava, pequenas dívidas que foram se acumulando e gerando juros. Acabou sendo preso, o que levou a família a uma situação de grande pobreza. Para piorar, outras pessoas da família também foram presas, e Dickens passou a trabalhar, aos doze anos de idade, numa fábrica de graxa. O que ganhava era suficiente apenas para pagar a alimentação da família na prisão. E aí, de repente, tudo mudou: o pai do escritor recebeu uma inesperada herança, que permitiu que saldasse as dívidas e que a família se recompusesse.

Sim, o tema de herança e das soluções inesperadas, tão famoso na obra de Dickens e que é outro dos elementos que fazia com que sua escrita fosse amada no seu tempo.

Muito já disseram que foi esse trauma da infância que produziu o escritor. Pode ser. É evidente, quando lemos uma biografia de Dickens, a sua persistente dificuldade em se enquadrar numa das identidades convencionais da Inglaterra do seu tempo, seu eterno problema de pertencimento e, junto com ele, a dificuldade persistente em respeitar as normas vigentes.

Dickens e sua família saíram da pobreza, mas essa experiência se reflete em todos os meninos pobres que pululam em sua obra: David Copperfield, Oliver Twist, Jack Dawkins, Nicholas Nickleby, Philip Pirrip todos eles são o menino eterno Charles Dickens.

E daí se passa aos traumas da sua vida adulta, sobretudo os afetivos. De Maria Bidnel – a paixão de juventude, moça frívola e que não quis nada com nosso herói – a Catherine Hoggarthcom, sua esposa, e suas muitas irmãs, duas delas com grande importância na vida de Dickens, a menor, de quem ele era muito afeiçoado e que morreu aos 16 anos nos seus braços e a famosa Georgina, sua grande amiga, que ficou do seu lado no difícil divórcio do escritor depois de 22 anos de casamento.

Dickens morreu aos 58 anos. Sua época – e sua obra – imprimiram longamente a ideia que a Inglaterra faz de si e a ideia que o mundo faz dela. Foi o escritor da urbanização, da indústria e da perda dos velhos referenciais sociais. Foi o escritor que mais falou de instabilidade, mudança e fronteira numa sociedade que tinha uma verdadeira obsessão pela estabilidade. E, talvez justamente por isso, foi, numa sociedade rica de escritores, o que melhor permitiu, aos ingleses, uma voz psicanalítica que lhes dizia que era preciso conviver com a mudança, porque ela acontece.

Autor: Fábio Horácio-Castro

Escritor, jornalista, pesquisador, sociólogo, etnógrafo, fenomenólogo, professor. Sou também Fábio Fonseca de Castro e Fábio de Castro da Gama. Conforme a ocasião, o nome.

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