O viajante literário em Londres 7: Fantasmagorias de Dickens

Dickens não inventa nada; mas, como ninguém, faz a roda girar. Particularmente no caso das suas contumazes fantasmagorias. Assim, por exemplo, o clima de brouillard de tantos dos seus textos, é um tropos do romance fantástico, gótico: Dickens não o inventa, mas o reproduz de uma forma tão específica que parece uma coisa nova.

Em O Castelo de Otranto, de Horace Walpole, tudo isso já está presente, e Dickens dialoga muito com a tradição neogótica presente nesse romance de maneira inaugurante, com suas passagens secretas, fogs, ratos, teias de aranha, noivas fantasmas, velas que nunca apagam, fantasmas puxando correntes e gemidos assustadores que cortam os ares da madrugada.

Tudo isso, antes de Dickens, foi importante para os pré-românticos e para os românticos. Mas Dickens tem uma imaginação prolífera, e leva além da tradição essa ambiência. Transporta tudo isso para uma sociedade moderna, urbana, peri-urbana ou para um rural remodelado pela industrialização das cidades. Essa é a diferença.

Ele, assim, não apenas atualiza todo esse velho clima de horror, trazendo o arcaico para a era industrial, como também dá mais vida aos semi-mortos de antigamente. A gente assombrada de Dickens transa, sente fome, chora, não entende, mente e faz intriga.

Mas do que isso: Dickens inventa tanto fantasma, mas tanto fantasma, que não há como não fazer uma verdadeira tipologia deles.

Primeiramente, há a categoria dos espíritos, daqueles que morreram e desgraçadamente voltam para incomodar os vivos. Em francês é o que se chama revenants. É o morto que causa impacto, que assusta. O espírito empoderado. O fantasma total, que aparece, fala e até apronta.

Por exemplo, em Dickens é aquele pequeno órfão, que foi maltratado, seviciado e assassinado e que volta na noite de Natal. Quando mesmo? Na noite de Natal. Pois é. Bem no meio da noite de Natal. O pequeno órfão atravessa uma porta e o narrador percebe, no dia seguinte, que essa porta era um armário que se encontrava murado há muitos anos. Típico de Dickens.

Outro exemplo é o enforcado. O que tem de enforcado na obra de Dickens não é brincadeira. E dentre todos eles, o enforcado enlouquecido da novela O quarto da Noiva. Um dos personagens mais assustadoras de toda a literatura. Dickens joga com a estrutura da narração. Viajantes estão mais ou menos perdidos numa grande casa antiga e de repente encontram um velho que, bestamente, caminha por essa casa de madrugada e que quer porque quer contar aos viajantes a sua “história”.

E conta uma história pavorosa: que tinha uma noiva e que a matou, para herdar sua fortuna, simplesmente sugestionando-a a morrer. Repetindo para a coitada “Dye, dye…”. Vejam só que coisa assustadora. Sobretudo em inglês, esse “Dye, dye…” é pesado. Quando dito em inglês, não é para fracos.

Os viajantes perdem a paciência com o velho e mandam que ele saia, mas ele os ignora. Apenas boceja e diz: “Preciso lhes contar, preciso lhes contar”.

Claro que eu sairia correndo, mas os dois viajantes são ingleses, e nem desconfiam que o velho é um revenant, um fantasma.

E ele então releva: “Vocês sabem onde tudo aconteceu? Foi aqui neste quarto. Este é o quarto da noiva”.

Credo. Puta merda. Se um simples pio da matinta já me retrai, imagina uma situação dessas, que tem um componente de manipulação.

Acho O Quarto da Noiva um grande estudo literário – no plano para-literário – e, no plano estritamente literário, uma obra de arte. Um estudo sobre a manipulação, inclusive sobre a manipulação narrativa. Vamos percebendo aos poucos que o velho é um grande manipulador, tão grande que, mesmo morto procura manipular os vivos.

Fora isso, ressoa Coleridge, especificamente aquele personagem fantasma de Coleridge que foi condenado a nunca mais para de contar a sua história.

Agora, para além de tudo isso, sabem o que acho mais espetacular nas histórias de terror de Dickens? O humor. Toda vez, quando chegamos no final das histórias, quando as tramas foram colocadas, trançadas e destrançadas, os ouvintes sempre, sempre, acabam cochilando. Isso é muito, muito engraçado, e é de uma sutileza extraordinária. São histórias que espelham o mundo da vida e que, dessa maneira, perfazem novamente as fronteiras entre mundos, que é o terreno onde Dickens se sente à vontade.

Ao espelhar o mundo da vida, o banal do humano, como o medo e o sono – e, ainda, ao se construírem geralmente por meio de uma narrativa que utiliza o diálogo como sua forma literária fundamental – as histórias de fantasma de Dickens têm, como todas as histórias de assombração, uma constituição basicamente oral.

Sem tempo para falar agora sobre as demais categorias de visagem de Dickens, deixo as quatro outras que vejo (hum, a palavra é sugestiva, neste contexto) para uma outra oportunidade.

O viajante literário em Londres 6: Dickens e as fronteiras do mundo

Dickens não nasceu em Londres, mas foi a síntese de Londres. E foi a síntese de uma época de autoreflexividade que tinha, em Londres, seu grande espaço de produção. A Inglaterra vitoriana tinha um imenso apetite por ficção e, nesse contexto, vários autores buscavam a independência financeira escrevendo num lugar que permitia, inclusive, espaço para mulheres autoras, como comprovam as irmãs Brontë, Jane Austen, Frances Burney e Maria Edgeworth. Nesse tempo as novelas publicadas em penny-paper e os folhetins de jornal podiam influenciar mais a opinião publica do que panfletos, e a literatura funcionava como uma espécie de voz reflexiva do debate, como o adversarial principle – essa voz constante da consciência, sempre autocrítica de si mesma, sempre em dúvida a respeito de nosssas certezas, que tanto falta aos nosso mundo.

Mas é certo que tudo isso tenha paralelos.  Síntese de Londres, ou de uma certa Londres, Dickens o foi, evidentemente. Mas sempre com paralelos. A autoreflexividade o demanda. Por exemplo, na eterna comparação entre a Londres de Dickens e a Paris de Balzac…

Ou na autoreflexividade que invadiu Londres, quando Dickens morreu. Nove de junho de 1870. A rainha Vitória entrou em prantos, por um lado. E, de outro, uma garotinha pobre que vendia frutas em Drury Lane, conta P. Collins em « The popularity of Dickens », publicano na Dickensian, número 70, indagou : « Isso quer dizr que Papai Noel também vai morrer ? ».

Era um sintoma. Os contos de natal de Dickens eram uma leitura obrigatória nos pubs, nos mercados, nas casas humildes e também nos castelos. Pelas bandas do East End – Houndsditch, Whitechapel, Aldgate, Spitalfields – na noite de natal, por um centavo se ganhava uma xícara de chá e o direito de ouvir a leitura desses contos. Londres lia pelos ouvidos. E enquanto o mundo católico frequentava a missa do Galo, Londres frequentava Charles Dickens.

Reflexividade é isso. Dickens doi um desvelador (um criador?) dos signos bárbaros da modernidade e do capitalismo. E nesse sentido Dickens, mais do que ninguém, cotejou a dicotonia das classes, da produção social da riqueza e da produção social da pobreza, mais do que ninguém – inclusive Balzac. Ninguém desenhou melhor o contraste tão precário entre « the purlieus of the rich » e « the slums of the poor ».

Ninguém descreveu tão bem os monstros que vagam nessa fronteira, capturando alimento ora de um lado, ora de outro. Aliás, nesse aspecto, cabe evocar André Maurois: “Je crois que l’aptitude pour créer des monstres est souvent le signe du grand romancier”. Ou seja: conhecemos os grandes romancistas por meio de sua capacidade de criar monstros.

Atividade particularmente fácil quando o espaço literário é a cidade de Londres, porque no meio do brouillard de Londres, as formas mais simples se tornam monstruosas.

E Dickens é um especialista nesse quesito. Dickens tem uma capacidade de justapor suas frases com uma rítmica que se desenvolve como a sensação de um labirinto. Uma hora cá e outra lá, de cada lado das muitas fronteiras da literatura.

E não só nas suas construções frásticas e parafrásticas. Igualmente nas tramas de suas histórias.

Jamais esquecerei do impacto profundo que foi, na minha vida, a leitura de The Great Expectations, quando Dickens me surpreendeu, enganou e amedrontou com sua descrição, até hoje pavorosa, da cena, logo no começo desse livro, em que o jovem Pip, Philip Pirip, se encontra perdido num pântano e em meio ao brouillard de sempre, visitando a tumba dos seus pais, é surpreendido por uma figura espectral portando correntes atadas aos pés. O jovem Pip ajuda a criatura se liberar de suas correntes e todos nós ficamos envolvidos naquele clima assombrado, mortos de medo de continuar a ler essa história bárbara que vai parecendo ser uma história de visagem. E é somente muito mais tarde que vamos descobrir que, na verdade, o fantasma era Abel Magwitch, um prisioneiro evadido, que irá presentar Pip, repentinamente, já depois do meio da história, com uma imensa fortuna.

Na minha compreensão, a zona de movimento das histórias de Dickens são, geralmente, esses espaços fronteiriços: fronteiras entre realidade e irrealidade, entre classes sociais, entre preconceitos, ideologias e a alegria de viver. Dickens, mais do que qualquer outro escritor, falou das fronteiras entre os mundos e mostrou como a maioria delas é inventada pelo capitalismo. E é por isso que Bakhtin, no seu “Questões de Literatura e de Estética”, coloca Dickens na sua relação de escritores que produzem “uma ruptura com as grandes realidades da vida”.

Autoreflexividade é a grande chave, o grande dispositivo, para romper as realidades. Que seria a grande literatura sem autoreflexidade?

Dickens o faz num tempo de radical construção de fronteiras. Nenhum tempo produziu mais fronteiras, no mundo, do que o século XIX. O tempo de Dickens é um tempo de fronteiras e Dickens produz a interpenetração entre elas. A Londres cosmopolita de Dickens era não só um mundo; era também um mundo de mundos. E por isso a nobre arte de atravessar fronteiras, possibilitada pela literatura, tinha um impacto tão grande. Aliás, abe perceber que essas fronteiras estão presentes, também, nos múltiplos interesses e atividades de Dickens: o teatro amador, o hipnotismo, os shows de magia, o jornalismo, o folhetim. Tudo isso eram coisas que desvelavam, transgrediam, uma determinada compreensão da realidade. Amo Dickens, sobretudo, porque ele descreve e transcende, por meio dessa autoreflexividade, fronteiras e realidades.

O viajante literário em Londres 5: Dickens, homem de seu tempo

Chegamos a Dickens no meu turismo literário. Fã incondicional, vou falar muito sobre ele, incontido e reverente. Dickens é um grande mestre, grande entre os grandes. Das casas em que viveu, em Londres, a mais referente é 48 Doughty Street, em Camden, onde hoje se encontra o Charles Dickens Museum. Fácil chegar, entrar, ver, pensar…

Charles Dickens é geralmente associado à era vitoriana mas, tecnicamente falando, é anterior a ela, pois nasceu em 1812 e Vitória só chegou ao trono em 1837. Ou seja, Dickens viveu 25 anos, quase a metade da sua vida, sem ser vitoriano. Entendemos o que as pessoas querem dizer: é que Dickens representa, como ninguém, a Londres do século XIX e da segunda revolução industrial.

Mas, vejam; Dickens, quando pensava sobre si mesmo, sobre o que era sua literatura, via-se como um herdeiro dos romancistas ingleses do século XVIII, como Defoe, Fielfing, Goldsmith, autores que ele amava.

Mas Dickens é um escritor do seu tempo e transcende essas epocalidades. Nem todo os escritores são tão contemporâneos de sua época e nem todos dão, tão bem, a margem do seu contemporâneo.

Hoje em dia é mais fácil tentar inserir Dickens da era vitoriana, certo, mas penso que houve um tempo em que foi mais fácil incluir a rainha Vitória na contemporaneidade dickensiana…

Isso porque Dickens foi lido e amado pelo conjunto da sociedade britânica, que se reconheceu nela como poucas sociedades se reconheceram, em sua época, em alguma literatura. Nosso autor agradava à classe trabalhadora porque denunciava as condições miseráveis em que viviam. E agradava aos burgueses, porque sabia mostrar a sua “humanidade” e, assim, estabelecia um vínculo com eles. Isso dito, entende-se porque Dickens foi um escritor extremamente popular – provavelmente o mais lido no país no século XIX. Todo mundo o lia (ou escutava): do analfabeto, presente nas inúmeras leituras públicas da sua obra, à rainha Vitória, justamente e ninguém menos, sua fã incondicional.

Sim, e também Marx, que foi um leitor atento de Dickens, considerando que sua obra trazia exemplos e elementos fundamentais para entender o capitalismo. Com efeito, Dickens via a ficção na realidade, fazendo com que a observação se transformasse em processo romanesco com grande dinâmica, e nem todos os autores fazem isso. E ainda cabe considerar a imensa empatia dele pelos desviantes, o que fez com que fizesse descrições efetivamente etnográficas.

Marx, pois é. Da rainha Vitória a Marx. Ah, e Dostoievski também.

Sabem qual foi a primeira pergunta que esse grande autor russo fez, quando saiu da prisão?

“Tem um novo Dickens?”

Nesse aspecto da popularidade, está bem a frente de Balzac – que mencionei em outra crônica. Não que Balzac não fosse popular, mas de fato não era tão popular como Dickens. Se há um paralelo na literatura francesa, em termos de popularidade, certamente é Dumas.

E o que eu falava acima sobre sua contemporaneidade tem a ver, provavelmente, com a sensibilidade de Dickens para olhar para sua própria vida, sensibilizar-se sem autocomiseração e transformar isso em literatura.

Dickens foi capaz de descrever todos os estratos sociais, primeiramente, porque teve experiência de todos eles, da sua classe média de origem à pobreza e, dela, à riqueza. Certo, era um grande andarilho de Londres e de seus arredores e um grande curioso, mas tudo era mediado pela sua própria experiência de mundo.

Por vezes trágica…

Seu pai foi um pequeno funcionário da Marinha, o que permitia à família uma condição de classe média. Gastava um pouco mais do que ganhava, pequenas dívidas que foram se acumulando e gerando juros. Acabou sendo preso, o que levou a família a uma situação de grande pobreza. Para piorar, outras pessoas da família também foram presas, e Dickens passou a trabalhar, aos doze anos de idade, numa fábrica de graxa. O que ganhava era suficiente apenas para pagar a alimentação da família na prisão. E aí, de repente, tudo mudou: o pai do escritor recebeu uma inesperada herança, que permitiu que saldasse as dívidas e que a família se recompusesse.

Sim, o tema de herança e das soluções inesperadas, tão famoso na obra de Dickens e que é outro dos elementos que fazia com que sua escrita fosse amada no seu tempo.

Muito já disseram que foi esse trauma da infância que produziu o escritor. Pode ser. É evidente, quando lemos uma biografia de Dickens, a sua persistente dificuldade em se enquadrar numa das identidades convencionais da Inglaterra do seu tempo, seu eterno problema de pertencimento e, junto com ele, a dificuldade persistente em respeitar as normas vigentes.

Dickens e sua família saíram da pobreza, mas essa experiência se reflete em todos os meninos pobres que pululam em sua obra: David Copperfield, Oliver Twist, Jack Dawkins, Nicholas Nickleby, Philip Pirrip todos eles são o menino eterno Charles Dickens.

E daí se passa aos traumas da sua vida adulta, sobretudo os afetivos. De Maria Bidnel – a paixão de juventude, moça frívola e que não quis nada com nosso herói – a Catherine Hoggarthcom, sua esposa, e suas muitas irmãs, duas delas com grande importância na vida de Dickens, a menor, de quem ele era muito afeiçoado e que morreu aos 16 anos nos seus braços e a famosa Georgina, sua grande amiga, que ficou do seu lado no difícil divórcio do escritor depois de 22 anos de casamento.

Dickens morreu aos 58 anos. Sua época – e sua obra – imprimiram longamente a ideia que a Inglaterra faz de si e a ideia que o mundo faz dela. Foi o escritor da urbanização, da indústria e da perda dos velhos referenciais sociais. Foi o escritor que mais falou de instabilidade, mudança e fronteira numa sociedade que tinha uma verdadeira obsessão pela estabilidade. E, talvez justamente por isso, foi, numa sociedade rica de escritores, o que melhor permitiu, aos ingleses, uma voz psicanalítica que lhes dizia que era preciso conviver com a mudança, porque ela acontece.

O viajante literário em Londres 4: Tennyson e Thackeray

Prossigo meu turismo literário em Londres. Parto a 9 Upper Belgravia Street, Belgravia, onde morou Alfred Tennyson (1809-1892). Conhecia bem o percurso, um de meus caminhos eventuais, numa região de boas pies and pints.

Tennyson. Cantabriano, platônico, assonante, atormentado Tennyson…

Efetivamente, fui conhecê-lo em Londres, lendo algo a seu respeito num jornal quotidiano. Fui ler sua obra mais falada, In Memoriam A.H.H., esse longo poema, escrito durante 17 anos, em homenagem a seu amigo, condiscípulo em Cambridge, Arthur Henry Hallam, noivo de sua irmã, falecido precoce e repentinamente de uma hemorragia cerebral.

Um poema estranho, mas que se torna compreensível em seu contexto e em seus propósitos: questionar a sociedade vitoriana e colocar em pauta os grandes temas da liberdade humana, inclusive a sexualidade, principalmente o tabu da homossexualidade, e, igualmente, a questão do agnosticismo. Não vamos, porém, atribuir-lhe bandeiras que ele não defendeu, mesmo porque era outro o contexto cultural.

No que tange ao seu agnosticismo, deve-se reconhecer haver, em Tenysson, uma relação dominante com o mundo natural, uma dinâmica ancestral que ele herda, muito forte na formação histórica da Inglaterra, de relação com a natureza. Isso produz um panteísmo de ordem mítica, sempre presente na sua escrita e isso afora a pura crítica da fé, na sua forma religiosa: “Existe mais fé na dúvida honesta (…) que em metade das religiões”, diz ele. 

Já no que tange à questão do homoerotsimo, é preciso perceber que no tempo de Tenysson ainda não havia, ao menos na Inglaterra, a associação da homossexualidade como uma figura identitária e social específica. Ademais, sabe-se muito a respeito da longa (de séculos) influência do platonismo cantabrígio (ou seja, referente à Universidade de Cambridge), concebido como amor casto, mas de devoção, entre os alunos dessa instituição.

Lí com muito interesse o poema The Charge of the light brigade – embora menos pela música de Iron Maiden de que pela Guerra da Criméia, sempre interessante para quem estudou comunicação. Nunca palavras inicias lembraram tanto o galope de cavalos partindo para o ataque, ainda crentes na vitória:

Half a league, half a league,

Half a league onward,

All in the valley of Death

Rode the six hundred.

Digam se a sonoridade desses versos não produzem galopes num campo de batalha. Tennyson ecoa Keats, como se sabe, contempla a natureza, busca a musicalidade da palavra, evoca as lendas do campo e da floresta e alitera tudo o que pode.  E nunca houve poeta mais assonante do que ele.

Bom, para concluir, há a mushroom pie do The Alfred Tennyson Pub, ali perto, no 10 Motcomb St. Experimentei-a depois da visita a sua casa.

E, não distante dali, alcancei 16 Young Street, Kensington, onde viveu o grande, o sensacional, o intrigante William Makepeace Thackeray (1811-1863) – que de fazedor de paz, apesar do nome, não possuía muito. Fachada térrea em branco, pavimento superior feito daquelas pedras que imitam tijolos, tão comum na vizinhança e a casa em frente a um pequeno parque de bairro. Mais tarde visitei sua morada posterior e eterna, seu túmulo em Kensal Green, o cemitério gótico londrino, vizinho de minha casa nessa cidade.

Bom, o que me interessa em Thackeray é sua influência sobre Machado de Assis. Uma influência discreta e mediada, certo, mas decisiva no que tange a “princípio da reserva” – depois explico.

Deixem que reúna elementos, antes, para explicá-lo. Em seu tempo, quando alguém se matriculava em Cambridge, seu nome era escrito num grande livro e seguido, quando não se vinha de uma linhagem nobre, com um cortante termo latino que excedia pela mácula: ne nobilitate. Creio que Thackeray observou profundamente essa marca de identidade, essa e outras, e que isso está na base da sua literatura. A Fogueira das Vaidades é um monumento discreto da desconstrução e à crítica da pretensa nobilitate. Nesse e em outros livros, a sua ironia é devastadora, e mais ainda porque possui reservas. Ah, as reservas de Thackerey… Ao não dizer tudo, diz mais ainda.

É assim que vejo a obra de Thackeray, como uma arte de eloquentes reservas.

Um outro exemplo mais formal e técnico disso ocorre quando o romance começa fazendo crer que sua personagem principal, em torno da qual a história caminhará é Amélia Sedeley, ou melhor Emily, como todos a chamam. Seguimos sua história e, lá pelas tantas, repentinamente, o narrador se dá conta de que “she wasn’t a heroine“. After all, after all… E Emily sai do centro, que passa a ser ocupado por Beck Sharp, o oposto da insossa Emily.

Penso que Thackay alegoriza, com essa mudança de foco narrativo, o próprio espírito do disse-me-disse, da fogueira das vaidades que sustenta seu romance. Quando li esse romance eu devia ter uns quinze anos de idade e achei essa mudança de foco narrativo um erro grotesco, uma vulgaridade literária inominável, mas hoje percebo do que Thackeray realmente estava falando.

Aos quinze anos acreditamos na voz que narra uma história e desacreditamos das vozes que narram essa voz narradora. Recordo que li com imensa má vontade o restante do livro e até acho que não cheguei a concluir a leitura. Não estou certo disso, mas tenho certeza de que pulei páginas e páginas, achando Thackeray um contra-autor, um des-autor, um canalha. Hoje, um pouco mais maduro, compreendo bem a sutileza do seu estilo e recuperei meu respeito por ele.

E, isto dito, voltemos ao que acima chamei de “princípio da reserva”. Trata-se daquilo que permite ao autor de se calar, repentinamente, depois de reunir os elementos para que as coisas sejam compreendidas. Trata-se do vai-de-si dos fatos agregados. Talvez, a diegese. Talvez, a hantologia.

Hoje acredito que a literatura mais incrível que há é a que fala das narrativas e dos silêncios que narram os fatos e os ruídos. Uma forma de prudência, de discrição, de generosidade mas, também… de ironia. E é por isso que compreendo o quanto Thackeray ecoa em Machado de Assis: ambos foram ne nobilitatem. Ambos possibilitaram os elementos para que o futuro implodisse o passado.

E ambos me fazem pensar a respeito de como a literatura é, em resumo, um dispositivo para que, sugerindo (ainda que discretamente) o presente, permita que o futuro imploda o passado.

Num tempo em que muitos autores supõem que dizer é explicitar, esclarecer, objetivar, mostrar, exibir, há uma grande lição na literatura de Thackeray (e de Machado de Assis): a literatura, antes, sugere, pisca os olhos, toca discretamente com uma pena.

O viajante literário em Londres 3: Shelley e Scott

Com assombro e desassossego diante da ciência desci na estação Sloan Square e caminhei em direção ao 24 Chester Square, onde Mary Shelley viveu, de 1846 até seu último ano de vida, 1851. Cheguei esbaforido e conferi: lá estava a plaqueta azul do English Heritage.

Hoje em dia Mary Shelley (1797-1851) é uma personalidade intrigante e todo mundo quer saber um pouco mais sobre ela. Quando estávamos morando em Londres, sua famosa novela, Frankenstein, completou duzentos anos e isso evidenciou tal interesse.

Folheando sua biografia In the search of Mary Shelley: The girl who wrote Frankenstein, de Fiona Sampson, percebo o quanto ela se torna um dos mitos urbanos da Londres atual. Mas também o quanto a experiência urbana de Londres se faz presente na sua obra.

Por exemplo, quando Mary Godwin – posteriormente Shelley – era adolescente e vivia nas proximidades do mercado de Smithfield, um de seus braços foi repentinamente tomado por uma misteriosa doença. Pelas informações que chegaram a nossos dias, tratava-se de uma psoríase agressiva, ou um severo eczema. Nada de muito grave, mas a impressão que esse evento gravou na mente da menina tornou-se um dos mais incríveis predicativos de uma obra literária futura. A experiência de ver seu braço sendo tomado “like a monstrous appendage stitched from some other body on to her own” foi o mais puro antecedente de Frankenstein.

A literatura estava lá, nas impressões da menina, e foi permitida pelo dispositivo do casamento com Percy Bysshe Shelley, advogado ateu e adepto do amor livre, grande poeta e amigo do mítico lord Byron.

O livro foi escrito, como se sabe, entre o outono de 1816 e dezembro de 1817, quando o casal, mais lord Byron e outros amigos alugaram uma casa no lago de Genebra – pasmem, a vila Diodati, casa pertencente ao meu antepassado materno Carlo Diodatti – e possuo uma gravura dela, afixada numa parede da minha casa.

Conta-se que, no momento da escritura do livro, Mary conviveu com alguns eventos corporais importantes: o nascimento de sua terceira filha, Clara, e o suicídio de sua stepsister Fanny Imlay e o suicídio da primeira esposa de Percy Shelley, Harriet, que foi encontrada afogada no lago Serpentine, no Hyde Park, em Londres.

Tudo em Mary foi corpo, com o complemento de alguma alma.

Tudo foi, igualmente, mundo.

Ao contrário, dentre muitos, de Sir Walter Scott, para quem, antes do mundo, havia o aqui.

Scott não morou em Londres, mas resta um dos grandes autores de língua inglesa da história e, penso, Londres é permeada por certa ausência de Scott. Certo, vocês podem pensar que isso é apenas um pretexto para eu falar de Scott nestas crônicas, mas realmente penso que há essa ausência, sempre presente. Desconfio que a literatura inglesa, embora seja muita coisa, é, também, uma ressentida ausência de Sir Walter Scott.

No começo do século XIX, a imensa popularidade das obras de Sir Walter Scott mostrava que a literatura podia ser, ao mesmo tempo, educativa, divertida e transcendental. Sua fama foi imensa em todo o Reino Unido e aumentava à medida em que suas interpretações da história e da mentalidade escocesas adentravam na imaginação popular. O próprio rei George IV foi seduzido por sua escrita a fama, a ponto de pedir de Walter Scott encontrasse, no castelo de Edimburgo, as chamadas “Honras de Escócia”, uma caixa com joias preciosas, perdida havia cem anos dentro do prédio – o que ele fez.

A literatura de Walter Scott era (é) aqui, antes de ser mundo. E isso resta como grandes marcas desse autor. E embora a Escócia seja prolixa terra de aquis, ela sempre, como todos sabemos, se dissemina pelo mundo.

Recordo meu primeiro encontro com ele: Lincoln Center, Nova York, ópera La dona del lago, de Rossini, libreto de Andrea Tottola sobre o poema The lady in the lake. Andares altos e pouco custosos, mas com visão excelente, inverno de 2015.

Londres não tem muita coisa da transcendência de Walter Scott. Paris a tem. Paris é lugar, enquanto Londres é mundo. A transcendência de Londres é a da cidade-mundo. Londres é Mary Shelley. Londres é máquina, cyborg, híbrido, Prometeu acorrentado que de repente fica livre. Mas Londres também é essa incrível lacuna de um, ou muitos, aquis.

O viajante literário em Londres 2: Coleridge e Keats

Prosseguindo minhas cartografias literárias em Londres, iniciadas na semana passada, confesso que busquei, em vão, a casa onde viveu Samuel Taylor Coleridge (1772-1834). Contaram seus biógrafos que ele habitou em Soho, 71 Berners Street. Fácil de achar e de chegar. Fui até lá, olhei, vi, procurei e não achei. Respirei os ares contíguos e fui embora. Pouco, mas o que era possível. De fato, não tinha a plaquinha azul, mas a encontrei, dias depois, por completo acaso, em outro endereço: 7 Addison Bridge Place, em South Kensington. Sim, é bem verdade que as pessoas moram em mais de uma casa ao longo da vida… E também soube que havia um terceiro endereço, a sua casa principal, no Devonshire, e que ela estava à venda! Era o Coleridge’s Cottage, 10 quartos, uma huge library, e 21 acre grounds. 7 milhões de £ibras. Aliás essa casa ainda não foi vendida e segue disponível, como acabo de perceber, e se alguém se interessar, podem vê-la aqui.

Not by any means, é claro. E nem pensar, também, em ir tão longe só para dizer que fui até lá, mas não importa. De resto, amo Coleridge. Colored, como seu nome me vinha à imaginação, numa vã promessa diegética, era para mim sinônimo de aventuras ultramarinas – Itália, Mediterrâneo, Marrocos, Índia… Não tanto, porque isso ficava como traço, na diegese projetada, porque Coleridge está, mesmo, mais para a Inglaterra brumosa e gótica.

Mas sabem do que gosto mais em Coleridge? Do fato de ele passar da política à ficção, e da ficção à poesia, e da poesia ao teatro e da lá ao jornalismo…

A obra que mais gosto de Coleridge? Fácil: The Rime of the Ancient Mariner, que conheci, olhem só como a leitura traça seu destino, depois que ouvi a música que a banda Iron Maiden fez dele – coisa que pode parecer improvável. Mas que é.

Curioso: acho que esse poema vinha de antes, mas não lembrava de tê-lo lido. Era como se ele me acampanhasse, parecia uma história de marinheiro de meu avô… Upon a painted ocean… day after day.

The Rime of the Ancient Mariner sempre me lembra Le Bateau Îvre, de Rimbaud… tal como os mares de meu avô. Ah e aquela canção francesa, Il était um petit navire, qui n’avait ja ja jamais navigué… Coleridge lembrava tantas coisas marítimas… Lembra tanto os mares de Mazagão, o mar Doce por eles trocados, as memórias de turbulentas navegações da família de minha mãe…

E de Coleridge a Keats.

Gosto menos de John Keats (1795-1821), que viveu em 10, Wentworth Place, Hampstead. Hoje, mais conhecida como 10, Keats Road, Hampstead. Norte de Londres. É a Keats House, que pode ser vista, para uma visita virtual, neste site, mas é bom avisar que ele nunca foi proprietário desse prédio, apenas viveu lá durante dois anos, em dois pequenos cômodos no térreo do imóvel. Ao longo de toda a vida Keats teve dificuldades financeiras e a tuberculose pleural que o matou, aos 25 anos, se deveu indiretamente a elas, constando a precariedade de sua alimentação e do aquecimento da casa.

O endereço é aberto ao público, mas estava fechado para reformas, quando andei por lá. Desconsolado, comprei suas poesias completas num sebo de Londres, mas meu filho Pedro leu-o mais que eu, acho. Keats é brilhante, mas na minha compreensão falta-lhe sal, sal de mar. Não alcanço a sua famosa sensualidade.

Passo batido por Keats. Talvez porque só consiga pensar em Keats junto com Byron e Shelley. Talvez porque ainda não tenha lido Keats realmente. Talvez porque, havendo sabido do impacto de Keats sobre Borges – e Borges é Borges – fiquei aguardando, sozinho, que algo acontecesse…

Mas nada, nunca, aconteceu.

Bom, verdade seja dita, Keats me acompanha, mesmo sem sal, desde que, indolente, peguei um livro dele na biblioteca da Universidade de Brasília, no remoto ano de 1993, e fui lendo, treslendo e acabei extraindo dele uma das epígrafes do meu livro A Cidade Sebastiana. Verdade seja dita, adoro Endymion, que lindo poema… que me forneceu uma epígrafe como…

A thing of beauty is a joy for ever:
Its loveliness increases; it will never
Pass into nothingness

Mencionei ao professor Benedito Nunes que essa epígrafe traduzia tudo o que eu desejava dizer em A Cidade Sebastiana e ele, sempre generoso (embora também condescendente e tendo mais o que fazer) não discordou.

Mas ainda não mereci Keats, suponho, como devia.

O viajante literário em Londres 1

Defoe, Pope e Fielding

Imagens de Marina Ramos Neves de Castro

Uma de minhas identidades profundas é a de ser um turista literário. Nos quatro anos em que morei em Paris não houve dia que não respirasse a Paris vivida por escritores. Uma amiga, embora não sem ironia, me disse, certa vez: “Respiraste o mesmo ar que todos eles!”

Certo, mas não há de ter sido o mesmo ar, já ocupado, nestes tempos, menos pela grande literatura de que por propelentes, dioxanos surfactantes e antibacterianos, etoxilatos de nonilfenois, hidrocarbonetos e dióxidos de nitrogênio. Mas a imagem literária, já caquética, ainda vale.

O mesmo ocorreu quando morei em Montreal e em Londres e se repetiu quando estive em um monte de outras cidades, de Lisboa a La Paz, de Nova York a Buenos Aires, do Rio a Filadélfia. Viajante literário, gosto de caminhar e deambular, vou, aqui e ali, imergindo nos lugares habitados ou referidos pelos escritores.

E assim foi que, chegando a Londres, em setembro de 2017, para lá residir por seis meses, mesmo tendo muito a fazer, imprescindi de organizar uma lista com os endereços onde viveram alguns escritores londrinos. Na medida do possível busquei visitar suas casas, ou melhor, as fachadas de suas casas, porque quase nunca elas estavam abertas ao público.

Cidade profundamente literária, tanto quanto Paris, Londres resta um livro aberto. Esboço cartografias afetivas, projetando as identidades delas em mim e o oposto: quem sou, ou seria, nelas. Perambulações e deambulações iniciáticas.

Em ordem temporal, começo com Daniel Defoe (1663-1731), de quem apenas li o clássico Robinson Crusoe, publicado em 1719. Jamais o leria, não fosse a intervenção de meu avô José, que amava relatos de viajantes e, sobretudo, de naufrágios. Para ele, esse livro era um pobre fragmento malcomparado à monumental História Trágico-Marítima portuguesa, seu livro de cabeceira; mas merecia ser lido.

Imagens de Marina Ramos Neves de Castro

Sobretudo pelo tema da subjetividade, visceral nesse livro. Eu mesmo creio que a invenção da ideia de voz interior, tão importante para a literatura, deve imenso a Defoe e a esse seu livro, senão mesmo ao marinheiro escocês Alexander Selkirk, náufrago perdido numa ilha deserta durante quatro anos e cujo relato constitui a base do Crusoé.

Defou habitou 95 Stoke Newington Church Street, Stock Newington. Coloquei no GPS, no Maps, no Bus Time London, no City Map e no Waze. Hora e meia só para chegar. Errei o caminho, me perdi. Voltei e comecei de novo. Não desanimei porque errar pelas cartografias constitui a essência dos náufragos, inclusive dos náufragos da literatura.

Finalmente encontrei o que, há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante, foi a casa onde morou Defoe. Hoje, só resta uma plaquinha. Tempo perdido? Claro que não.

Prossigo, na mesma ordem temporal de minha lista de autores, até 110 Chiswick Lane South, Chiswick, endereço onde viveu Alexander Pope (1688-1744). Passei de ônibus à frente desse distante endereço e o dei por visitado, porque estava a caminho da casa de Fielding, vindo de Hammersmith e tinha pressa. De resto, depois da decepção quanto a casa de Defoe, já imaginava que só ia ver uma plaquinha.

Imagens de Marina Ramos Neves de Castro

Mas isso não desabona Pope. Aliás, tenho certa tendência a me identificar com Pope, simplesmente por afetividade em relação ao seu espírito satírico. Não que me veja assim, mas não que não me veja, igualmente. E, ademais, tem sua hostilidade ao mundo, devida talvez ao que sofreu por ser cristão, ou por seus problemas de saúde. Sempre achei que Pope representava o triunfo da palavra… sobretudo da que quase-foi-dita.

Um dos livros mais ferozes que li foi The Rape of the Lock (O rapto da Madeixa), publicado em 1712, no qual Pope ridiculariza o esnobismo, a galanteria, a frivolidade dos que se sentem superiores. Sempre achei que esse livro deveria ser reescrito por alguém a cada 50 anos, pelos menos, para seguir desconstruindo as assertivas de classe que justificam toda a exclusão social. Recordo que minha avó Maria Vera me deu esse livro de presente, comprado no sebo de Eduardo Failacce, quando fiz 12 anos de idade, recomendando que eu lesse as entrelinhas:

“Na verdade, não é de Helena de Troia que estão falando, e nem mesmo de uma mecha de cabelo”.

Hoje percebo que Pope foi um dos grandes mestres da literatura satírica, mas também um dos grandes mestres da tradução da literatura clássica. Nele, o passado confronta o presente, perfazendo o ridículo, o burlesco, a sátira. Não há paralelos em língua portuguesa, mas há um eco de Pope em Machado de Assis, creio, justamente nessa relação passado-presente…

Prossigo até Milbourne House, Barnes Green, onde viveu Fielding. Como disse, estava a caminho de lá.

Imagens de Marina Ramos Neves de Castro

Henry Fielding (1707-1754), o li na edição vermelha de uma série de clássicos da editora Abril: Tom Jones. Primeiro vi o filme, que passava na televisão ao acaso de nossas vistas e interesse, na companhia do primo Marcelo, pré-adolescentes, e lembro de como rimos das aventuras de Tom Jones. O nome virou um xingamento, nos dias seguintes e meu pai acabou me perguntando porque é que eu estava chamando de Tom Jones um vira-latas que desejava ardentemente copular com a bem protegida cadela do vizinho. Mencionei o filme e meu pai me ofereceu o livro. Achei-o imenso e com letras miúdas, e o li aos pulos, mas me divertindo. Custava a crer que alguém do século XVIII tinha escrito aquelas porcarias, aquelas safadezas, e mais à frente comentei com o primo Marcelo: esses ingleses eram muitos safados, será que hoje fingem?

Referia-me à ideia que fazíamos, então, do povo inglês, certamente não herdeiro de Jones – e nem de Fielding, tampouco.

Fábio Horácio-Castro

Os textos da série O Viajante Literário em Londres saem neste blog todas as quartas-feiras a noite.