Conversa com Diogo Monteiro na 26a Bienal de Literatura de São Paulo

Estarei num bate-papo com Diogo Monteiro na próxima 4a, dia 6/7, às 16:30, no estande do Sesc, na 26a Bienal de Literatura de São Paulo – numa programação que reúne vários autores lançados pela Editora Record, presentes em todos os dias do evento. O Diogo e eu vamos falar de nossos livros, literatura, escrita e do que rolar.

Terça, dia 14/06, estarei em Paraty conversando sobre O Réptil

Próxima 3a-feira, dia 14 de junho, estarei em Paraty, RJ, discutindo “O Réptil Melancólico” com o Clube de Leitura do Sesc. Será a terceira seção de conversas sobre o livro, lá em Paraty, agora com a presença do autor. As outras duas ocorreram nos dias 31 de maio, 04 de junho passado. Muito legal essa programação – um “esquenta” para o festival Literário Arte da Palavra, que acontece em Paraty em julho – e no qual também estarei presente – e para a Flip, que este ano acontece em novembro (quando espero estar outra vez por lá).

Horário: das 19 às 21h

Local: Sesc Santa Rita – R. Dona Geralda, 320

Centro Histórico, Paraty – RJ

Uma crítica de “O Réptil Melancólico” publicada no 451, da Folha de São Paulo

Laut | Liberdade e Autoritarismo

Por entre fissuras selvagens

Atravessado por alegorias amazônicas e criaturas reptilianas, romance ilumina processos históricos

João Roriz
25mai2022 15h58 (01jun2022 02h43)

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Ilustração de Veridiana Scarpelli
Fábio Horácio-Castro
O réptil melancólico
Record • 384 pp • R$ 54,90

Preocupado em resgatar o valor estruturante dos mitos e dos ritos, Claude Lévi-Strauss refuta a premissa que os despreza como acidentais ou casuais em relação ao conhecimento humano acumulado. Para o antropólogo francês, antes da ciência moderna e de sua métrica de validação, as práticas de observação, experimentação e reflexão informavam as comunidades. Marco nas ciências sociais, o conceito de bricolage para Lévi-Strauss é esse fazer científico “primeiro” (designação preferida por ele, em vez de “primitivo”).

Lévi-Strauss contrasta o labor do bricoleur ao de um engenheiro. O engenheiro é refém de suas matérias-primas e de um ferramental preconcebido. O bricoleur executa tarefas com “um conjunto sempre finito de utensílios e de materiais bastante heteróclitos, porque a composição do conjunto não está em relação com o projeto particular, mas é o resultado contingente de todas as oportunidades que se apresentam para renovar e enriquecer o estoque ou para mantê-lo com os resíduos de construções e destruições anteriores” (Lévi-Strauss, O pensamento selvagem).


O réptil melancólico, romance de estreia de Fábio Horácio-Castro

Lembrei-me do antropólogo francês ao ler O réptil melancólico, romance de estreia de Fábio Horácio-Castro (heterônimo de Fábio Fonseca de Castro, professor na Universidade Federal do Pará). Como uma bricolagem que conecta o conhecido com o incógnito que não pode ser aprendido de forma usual, seu posicionamento de elementos de forma entrelaçada revela novos significados. Ao contrário de um engenheiro cujo projeto tem começo, meio e fim, e que usa matérias-primas e ferramentas com racionalidade utilitarista, a narrativa de Horácio-Castro percorre caminhos imprevistos, que mostram acasos e em que se apresentam desvios. Sua escrita não domesticada brinca conosco, leitores, mudando a narração e os cenários, retirando aspas, pontos e vírgulas para costurar diálogos ficcionais com pensamentos. Faz nos movermos por rastros entre fissuras, como seus répteis. Como literatura que arrisca, teve seus acertos reconhecidos pelo Prêmio Sesc de Literatura 2021 na categoria romance.

O duplo processo de violência, colonial e ditatorial, rasga os laços sociais dos personagens

A história de O réptil melancólico tem como pano de fundo um passado distópico. Ao contrário do resto do Brasil, que conseguiu sua independência de Portugal no começo do século 19, o estado do Grão-Pará permaneceu colônia portuguesa. Sua descolonização ocorreu somente na década de 60, enquanto lutas pela independência também eram travadas na África. Mas, em vez de se tornar um estado independente, o Pará foi anexado pela ditadura militar que se instalou no Brasil em 1964. O duplo processo de violência, colonial e ditatorial, rasga os laços sociais dos personagens e embaralha suas identidades. O livro tem como ponto de partida o exílio, condição transitória decorrente da brutalidade sofrida por quem se opôs à ditadura e que o situa num espaço-entre. A história inicia, assim, com um não lugar ou um entre-lugares, que se instaura entre aquele aonde se vai e de onde se vem.

Felipe e sua mãe vivem na Europa, que recebe os exilados políticos do autoritarismo brasileiro. Felipe carrega consigo uma batalha de imaginações: aquelas construídas pelos outros exilados de uma terra que ele não conheceu, as suas próprias, de uma vida que poderia ter sido. Entre relatos de tortura e fábulas amazônicas, ele fantasia a cidade onde nasceu e que não vivenciou. Deixa sua mãe, que perdeu o desejo de retornar, e busca sua família paterna, que o acolhe, em especial seu primo Miguel. Na contramão de Felipe e desencantado com sua cidade, Miguel prepara sua partida para a Europa. A narrativa caminha entre desencontros que revelam novos achados.

A trama da obra atravessa e é atravessada por alegorias amazônicas. Criaturas reptilianas se alternam na história: um lagarto reflete sobre o destino dos homens, um ghoûl explica mistérios aos humanos, um dragão de pedra assume a narração. Como bestiário, o livro compila reptilianos que observam, dialogam e narram.

Cidades, casas e ruas compõem os arcos que sustentam a história e são percorridos por seus répteis. Os lugares refletem as sensibilidades dos protagonistas. Como condição de ontologias, os espaços sustentam os afetos dos personagens, como seus sentimentos de pertencimento. Outros lugares parecem independer dos seus visitantes, como a casa do Anfão, com seus mortos e seus répteis.

Em nenhum lugar do livro se menciona expressamente que parte significativa da história se passa na cidade de Belém; todavia, a mesma insistência em não nomeá-la marca as pistas sub-reptícias que não deixam dúvidas de que se trata dela. A cidade amazônica por vezes oferece condições para as ações e os pensamentos de Felipe ou Miguel; por outras, aparece como persona própria. Se a nomeação ordena o caos, a Belém inominada libera possibilidades restritas.

Vingando-se da história

É comum uma mudança de lugar nos fornecer outra perspectiva quando retornamos ao ponto de partida. Uma temporada em outra cidade pode despertar novos olhares sobre o que antes era habitual. Em O réptil melancólico esse exercício não se dá apenas nos espaços, mas também no tempo.

Ao partir de uma distopia do passado, o livro possibilita outro engajamento com nossa história. Colonização e ditadura formam um contínuo: a maior parte da população aceitou a passagem de colônia portuguesa para colônia brasileira, de um governo medíocre para outro. Histórias locais foram domesticadas, e a maioria reproduziu mimeticamente a autocolonização. Dos dissidentes, a tortura e o exílio dilacerou suas identidades.

Com essa mudança distópica, processos profundamente violentos que rasgam os tecidos de pertencimento são desnaturalizados. Como leitores, conseguimos senti-los na pele como são: não naturais, impostos e construídos. Ao evidenciar a correlação colonial-ditatorial, O réptil melancólico vinga-se da história, reimaginando-a, menos pelo que ela poderia ter sido, mais por fazer o leitor ver processos obscurecidos. Ao fazê-lo, ilustra algo que a literatura acadêmica pós-colonial tanto afirma: as reminiscências da violência colonial não ficaram inertes no passado, mas informam práticas do presente.

O romance perdido (e reencontrado) de Céline

Em agosto de 2021 o jornal Le Monde anunciou a descoberta de milhares de páginas manuscritas inéditas do escritor francês Louis-Ferdinand Céline. Dentre elas, inclusive, o primeiro tratamento de um romance inteiro, chamado Guerre (Guerra), de 1933 – publicado no mês passado pela editora Gallimard.

Esses manuscritos haviam desaparecido em 1944 e, pelo que se sabe, tiveram uma aventura rocambolesca, atravessando esconderijos secretos, malas perdidas, detetives e guardadores inexpugnáveis. Uma descoberta que teve o efeito de um tempestade (un coup de tonnerre) no céu da literatura.

Céline (1894-1961) foi um escritor genial, mas de posições políticas chocantes: anti-semita, amigo da ultra-direita e colaboracionista com o regime nazista, durante a invasão da França. Se é fácil ficar maravilhado por seu texto, é difícil tolerá-lo como pessoa.

Seus romances Voyage au bout de la nuit (1932) e Mort à crédit (1936), são obras primas, uma literatura existencialista que dialoga em permanência com a filosofia – ainda que a desdiga, a desqualifique, em permanência, como se vê no seguinte trecho de Entretiens avec le professeur (1955):

« J’ai pas d’idées moi ! aucune ! et je trouve rien de plus vulgaire, de plus dégoûtant, que les idées ! les bibliothèques en sont pleines ! et les terrasses des cafés !… tous les impuissants regorgent d’idées !… et les philosophes !… c’est leur industrie les idées !… »

(Eu não tenho ideias! Nenhuma! E não vejo nada de mais vulgar, de maior mau gosto, do que as ideias! As bibliotecas estão cheias delas! E os terraços de cafés!… Todos os impotentes transbordam e ideias! … E os filósofos!… É uma indústria de ideias que eles têm!…)

Não é de admirar que o primeiro núcleo de ideias que influenciou Céline foi a obra dos grandes moralistas franceses (La Rochefoucauld, Chamfort, Vauvenargues, La Bruyère…), que os cita abundantemente, notadamente nos Cahiers de prison. O escritor partilha, deles, o seu rigoroso pessimismo antropológico – o que levou Walter Benjamin a qualificar a obra de Céline como um “nihilismo antropológico”. O que significa isso? Que a literatura de Céline produz uma visão do mundo pessimista, que não para de denunciar as aparências da virtude, a vaidade do homens, o ridículo da existência, a impotência da imaginação, o egoísmo universal dos seres…

O ser humano, visto por Céline, é uma criatura miserável e desesperada, confrontado eternamente ao absurdo da sua própria existência. Não podendo alcançar o projeto da virtude, da beleza e da bondade que entrevia como a sua própria salvação, o ser humano acaba se lançando numa existência marcada pelo desespero existencial. E tudo se torna ainda pior quando o indivíduo ganha consciência de que está condenada a conviver com essa permanente dissolução de si mesmo – e aqui entra outro aspecto central da obra de Cline: a metáfora médica do cadáver, do corpo que começa a apodrecer ainda em vida.

O homem de Céline é um indivíduo já em decomposição, condenado à insignificância, ao apodrecimento, à pulverização. E, pior ainda, sem esperança de que se torne real a grande ficção de que tem uma alma…

E com isso retornamos ao Céline filósofo. Suas influências? Schopenhauer e Nietzsche, evidentemente, mas também Bergson, com sua reflexão sobre a temporalidade. De Nietsche encontra-se ecos muito fortes na obra de Céline: a imagem da fraqueza dos pequenos homens, , a denúncia do ressentimento e do nihilismo passivo…  

Finda a II Guerra, Céline passou a ser perseguido nos seu país. Seu colaboracionismo com os alemães não foi e não deveria ter sido perdoado. Seguem-se cinco anos de exílio na Dinamarca e, em seu retorno, retira-se em uma vida de silêncio numa casa rural, em Meudon, onde escreveu Nord (1960) e Rigodon (1969).

Guerra, o romance encontrado, foi lançado dia 22 de maio passado. Para o grande evento, a Gallimard fez uma primeira de edição já com 80 mil exemplares – número significativo, mesmo na França.

O Réptil lido por Wellington Rafael

Wellington Rafael, no seu perfil no Facebook

Depois de muito tempo sem postar minhas leituras, o que farei nas próximas semanas, posto aqui a leitura desse livro que me fascinou: O Réptil Melancólico de Fabio Fonseca Horácio-Castro.

Poderia começar falando que o livro é vencedor do prêmio sesc de literatura, mas quero falar mais. Que é um livro fascinante.

Certa feita ouvi dizer que um livro bom é aquele que já nos prende pelo seu prólogo, como Cem Anos de Solidão; A Metamorfose; Grande Sertão; Anna Kariênina, etc. E é o que acontece com O Réptil Melancólico, que já nos fascina logo em sua abertura.

Uma leitura fluida, que nos prende, cujo o enredo gira em torno de Felipe, que foi pra o exílio na Ditadura militar com sua mãe, sem ser perguntado se queria, ou não (as entrelinhas são maravilhosas), mas que quando tem a oportunidade retorna a sua casa do Anfão.

Quando estava lendo, tive a sensação de algumas influências e referências a Cem Anos da Solidão, e quando leio a quarta capa, a surpresa, Marcos Peres diz que o Anfão se avizinha de Macondo.

Enfim, poderia dizer mais sobre, mas deixo agora para que vocês mergulhem nesse livro e se encantem.

Aproveito para dizer que dia 30 de maio (segunda-feira) teremos um encontro com ele às 19h no Sesc de Poços de Caldas para um bate-papo.

Encerro como sempre dizendo que esse livro me acrescentou e aumentou um pouquinho à vida.

“Se diante disso, meu Deus, tu me enches de paciência, se diante da persecução banal da história do quotidiano, tu me dás um rasgo de afeto, se me dás também a generosidade, eu te pergunto, se o puder, meu Deus, por que fizeste de mim um fraco?”.

CASTRO.__ In: O Réptil Melancólico, 2021. p. 374.❤️📚🍷🦎

Apresentação de Luci Collin para O Réptil Melancólico

Aqui a carne da memória sussurra histórias e nos instrui: não há leituras secundárias. Incursionamos por países secretos, atravessamos pequenas almas na pátria dos exilados, num recontar de quando se nasce com toda a história já decidida e a vida demanda reescritura.

A lenda é de um réptil, que vai por dentro – na azulejaria, em poços ou espelhos. Predestinado a olhar, nos confronta com a moral familiar, os simbolismos, as muralhas do espírito. Chega-se ao Anfão e ao velho Malaquias; ao Felipe à procura de João; ) mãe presa e torturada; à avó lembradora; aos homens crescendo em cidades (aladas) que não são suas. Recordações centrífugas e centrípetas. E sussurros: Miguel e cães invisíveis, serpentes icéfalas, lêlures vermelhas. O réptil vaticina que se mora tanto em casas quanto em pensamentos.

Crônicos paradoxos. Lisboa e a Revolução dos Cravos; Paris, pátria superposta; e o que pode ser o Brasil (uma pergunta?). O Estado cínico, as causas ganhas/perdidas, o nunca acontecido. A pragmática da colônia eterna. Utopias cruas. Abraços que garantem o consentimento para se ter um passado. Modo de se fazer: demolir os lugares da memória? Ser uma história-que-não-foi? E: qual é sua origem?

O réptil se completa na prática do jogo. Sem busca, desaparecerá, será silenciado, ou se transformará num homem arrogante em ternos brancos. Pois jogue. Este O réptil melancólico nos enseja um mundo de percepções inegavelmente corajosas e necessárias.

Luci Collin

O Prêmio Sesc de Literatura anuncia os vencedores da edição 2022

Na categoria Conto foi selecionado o livro Corpos benzidos em metal pesado, de autoria do paraense Pedro Augusto Baía. Na categoria Romance foi premiada a obra Mikaia, de Taiane Santi Martins, do Rio Grande do Sul. Este ano, o Prêmio Sesc de Literatura recebeu 1632 inscrições, sendo 844 coletâneas de contos e 788 romances. Parabéns aos escritores! Ficamos por aqui contando os dias para ler os novos livros, que serão lançados em novembro pela Editora Record, parceira do Sesc no projeto.

Feliz de ver outro paraense recebendo esse prêmio. Com o Pedro Augusto Baía são 4!!

Para saber mais:
https://cultura.estadao.com.br/…/literatura,conheca-os…

Cartas ao Leitor 8: Monólogo interior, último recurso

No feriado de Páscoa estava lendo Albert Cohen, autor que poucos lembram, que está fora do cânone, ausente dos grandes cursos de literatura mas que é rigorosamente genial e grande no que fez. Estava lendo meu velho volume de La Belle du Seigneur, um calhamaço de mil páginas que conta uma história hiper simples e que envolve apenas três personagens. O livro, no entanto, se torna gigantesco por seu estilo, pela beleza da criação literária, inventiva e lírica e, também, pela ousadia narrativa.

Um elemento, dentre muitos, chama atenção: o recurso do monólogo interior, o dispositivo consagrado por James Joyce no seu Ulysses – mas que já estava presente no estilo indireto livre de Dostoievsky e que aparece em outros autores, em graus diferentes de inventividade.

Sim, o recurso marcado pela noção de fluxo da consciência, com uma economia catártica de pontuação, frases se sobrepondo a frases – a dita literatura moderna, por excelência.

Em Albert Cohen vemos uma interessante variação desse estilo: primeiramente, nota-se que não há a abundância de interjeições, de pontos de exclamação e de interrogação que vemos em Joyce e nem, tampouco, aquele diálogo ensimesmado, sempre centrado no conflito moral-ideológico, que vemos em Dostoievsky.

Temos outra coisa, inclusive difícil de dizer o que é. Mesmo porque, só nesse romance há uns dez monólogos interiores, todos diferentes entre si. O dos personagens Solal e Ariane são os principais. E é incrível a diferença ente eles: no monólogo interior de Solal, tem-se uma tônica argumentativa curiosa, que traduz o espírito cartesiano em suas agruras, em seus subterrâneos. No de Ariane, tem-se uma impressionante textura de sensualidade, centrada na observação do quotidiano e no desejo de transcendência.

Belo livro o de Cohen. A leitura foi interrompida pelo início da semana de trabalho: aulas, orientações, pareceres, reuniões, bancas, artigos… e nem tudo isso interessante E eis-me aqui pensando em como seria um monólogo interior dos meus afazeres na universidade… Evidentemente não vou atormentar vocês com essa chateação – mas pensar nisso e fundir os diferentes estares e tempos do meu trabalho me pareceu um recurso interessante para não sair do ambiente literário… um último recurso…

Boa semana a vocês.

A condição colonial

“Minha experiência não era a de uma utopia, mas a pragmática de uma condição eternamente colonial e de eterna duplicidade a respeito de minhas origens. Tenho a experiência, portanto, da condição colonial. Quando nasci, minha cidade já não era, ao menos na condição que lhe davam, uma colônia portuguesa. Tornara-se uma colônia brasileira. Minha cidade e o imenso território colonial a que ela dava capital, essa província de florestas e de mares doces, rica e despovoada, da qual se proíbe que se diga o nome e que, como as colônias de África, desde os anos 1960, fazia irridência e desejava a independência, fora, enfim, cedida ao Brasil, exigência antiga desse país e que remontava ao século XIX, justificando-se por uma pretensa integridade territorial que, por lá, diziam histórica”.

Trecho de O Réptil Melancólico. Editora Record, em livrarias de todo o país.

O viajante literário em Londres 7: Fantasmagorias de Dickens

Dickens não inventa nada; mas, como ninguém, faz a roda girar. Particularmente no caso das suas contumazes fantasmagorias. Assim, por exemplo, o clima de brouillard de tantos dos seus textos, é um tropos do romance fantástico, gótico: Dickens não o inventa, mas o reproduz de uma forma tão específica que parece uma coisa nova.

Em O Castelo de Otranto, de Horace Walpole, tudo isso já está presente, e Dickens dialoga muito com a tradição neogótica presente nesse romance de maneira inaugurante, com suas passagens secretas, fogs, ratos, teias de aranha, noivas fantasmas, velas que nunca apagam, fantasmas puxando correntes e gemidos assustadores que cortam os ares da madrugada.

Tudo isso, antes de Dickens, foi importante para os pré-românticos e para os românticos. Mas Dickens tem uma imaginação prolífera, e leva além da tradição essa ambiência. Transporta tudo isso para uma sociedade moderna, urbana, peri-urbana ou para um rural remodelado pela industrialização das cidades. Essa é a diferença.

Ele, assim, não apenas atualiza todo esse velho clima de horror, trazendo o arcaico para a era industrial, como também dá mais vida aos semi-mortos de antigamente. A gente assombrada de Dickens transa, sente fome, chora, não entende, mente e faz intriga.

Mas do que isso: Dickens inventa tanto fantasma, mas tanto fantasma, que não há como não fazer uma verdadeira tipologia deles.

Primeiramente, há a categoria dos espíritos, daqueles que morreram e desgraçadamente voltam para incomodar os vivos. Em francês é o que se chama revenants. É o morto que causa impacto, que assusta. O espírito empoderado. O fantasma total, que aparece, fala e até apronta.

Por exemplo, em Dickens é aquele pequeno órfão, que foi maltratado, seviciado e assassinado e que volta na noite de Natal. Quando mesmo? Na noite de Natal. Pois é. Bem no meio da noite de Natal. O pequeno órfão atravessa uma porta e o narrador percebe, no dia seguinte, que essa porta era um armário que se encontrava murado há muitos anos. Típico de Dickens.

Outro exemplo é o enforcado. O que tem de enforcado na obra de Dickens não é brincadeira. E dentre todos eles, o enforcado enlouquecido da novela O quarto da Noiva. Um dos personagens mais assustadoras de toda a literatura. Dickens joga com a estrutura da narração. Viajantes estão mais ou menos perdidos numa grande casa antiga e de repente encontram um velho que, bestamente, caminha por essa casa de madrugada e que quer porque quer contar aos viajantes a sua “história”.

E conta uma história pavorosa: que tinha uma noiva e que a matou, para herdar sua fortuna, simplesmente sugestionando-a a morrer. Repetindo para a coitada “Dye, dye…”. Vejam só que coisa assustadora. Sobretudo em inglês, esse “Dye, dye…” é pesado. Quando dito em inglês, não é para fracos.

Os viajantes perdem a paciência com o velho e mandam que ele saia, mas ele os ignora. Apenas boceja e diz: “Preciso lhes contar, preciso lhes contar”.

Claro que eu sairia correndo, mas os dois viajantes são ingleses, e nem desconfiam que o velho é um revenant, um fantasma.

E ele então releva: “Vocês sabem onde tudo aconteceu? Foi aqui neste quarto. Este é o quarto da noiva”.

Credo. Puta merda. Se um simples pio da matinta já me retrai, imagina uma situação dessas, que tem um componente de manipulação.

Acho O Quarto da Noiva um grande estudo literário – no plano para-literário – e, no plano estritamente literário, uma obra de arte. Um estudo sobre a manipulação, inclusive sobre a manipulação narrativa. Vamos percebendo aos poucos que o velho é um grande manipulador, tão grande que, mesmo morto procura manipular os vivos.

Fora isso, ressoa Coleridge, especificamente aquele personagem fantasma de Coleridge que foi condenado a nunca mais para de contar a sua história.

Agora, para além de tudo isso, sabem o que acho mais espetacular nas histórias de terror de Dickens? O humor. Toda vez, quando chegamos no final das histórias, quando as tramas foram colocadas, trançadas e destrançadas, os ouvintes sempre, sempre, acabam cochilando. Isso é muito, muito engraçado, e é de uma sutileza extraordinária. São histórias que espelham o mundo da vida e que, dessa maneira, perfazem novamente as fronteiras entre mundos, que é o terreno onde Dickens se sente à vontade.

Ao espelhar o mundo da vida, o banal do humano, como o medo e o sono – e, ainda, ao se construírem geralmente por meio de uma narrativa que utiliza o diálogo como sua forma literária fundamental – as histórias de fantasma de Dickens têm, como todas as histórias de assombração, uma constituição basicamente oral.

Sem tempo para falar agora sobre as demais categorias de visagem de Dickens, deixo as quatro outras que vejo (hum, a palavra é sugestiva, neste contexto) para uma outra oportunidade.