Fernando Marías

Imagem reproduzida do Americanpost News

Morreu aos 63, no dia 5 de fevereiro passado, o escritor basco Fernando Marías. Sua obra fica marcada por seu estilo centrado no diálogo e na escuta do outro, uma obra que refle plenamente o autor: sujeito elegante, cuidadoso com os detalhes, conversador fabuloso, cheio de humor e de inteligência. 

Romancista, novelista, roteirista, teatrólogo, Marías é um nome importante da literatura espanhola contemporânea, e isso desde que sua primeiro novela, “La luz prodigiosa” ganhou o prêmio Ciudad de Barbastro, em  1990. Recebeu muitos prêmios literários. “La luz prodigiosa”, parte do argumento de que o poeta Federico García Llorca não morreu, ao ser fuzilado pelos republicanos espanhóis em 1936, sendo socorrido por um mendigo, que o ajuda e o leva a um convento. Essa novela foi transforma em filma, dirigido por Miguel Hermonoso e musicado por Enio Morricone.

Marías também escreveu as novelas “Esta noche moriré”, “El mundo se acaba todos los días”, “Los Fabulosos Hombres Película”, “El vengador del Rif”, “La batalla de Matxitxako”, “La isla del padre” e “La mujer de las alas grises”. Com “El Niño de los coroneles” ganhou o importante prêmio Nadal, em 2001.  Tambémorganizou a coletânea “Frankenstein resuturado”, em 2019, uma homenagem ao centenário de morte de Mary Shelley. Escreveu também diversos roteiros para o cinema e algumas peças de teatro.

Seu último livro, “Arde este libro”, publicado no ano passado, tem o ar de uma  carta póstuma, ou de um testamento literário. Efetivamente, é um exercício confesional, uma literatura de expiação, no qual discute a relação entre literatura, memória e o ato de morrer.

Para quem se interessar em ver mais, segue o obituário de Marías publicado no El Pais.

Cartas ao Leitor 5

Bom dia,

E bem-vindxs ao tempo que os alunos não têm o que dizer. Para nós, professores, é o mal constante das gerações recentes: perguntamos se alguém têm comentários ou questões e somos açoitados por um lancinante silêncio. Claro que há exceções (raras) e que me refiro mais à graduação, porque no mestrado e doutorado as pessoas falam mais – talvez com a excessão dos que vêm diretamente da graduação, e, assim, dessa cultura tartamuda.

Distantes tempos em que se alugava o professor com perguntas e que, do ponto de vista dos alunos, era um triunfo quando se conseguia construir um argumento que mobilizava toda a sala de aula. Distantes tempos em que se escrevia dez páginas (alguns vinte) para cada resposta na prova, quando o limite era de três páginas para a resposta. Ou em que a gente, quando era aluno, trazia nossas leituras de fora do programa para “dialetizar” a aula. Meus tempos… e nem tão distantes assim.

Lamento, mas, de boa, tanto faz: se é assim que é, se é assim que eles precisam que seja, fazemos o melhor, certo? Claro, e sigo corrigindo as provas dos meus alunos, neste semestre. É a semana do ano dedicada a isso: corrigir provas e auferir conceitos.

Mas deixei 30% da avaliação para pontuá-los por sua participação em aula. E ela não houve. Ninguém teve dúvida, dúvida de verdade. Pontualmente, uns não entenderam um detalhe, um detalhezinho, porque eles entendem geralmente tudo. Pontualmente, eles comentaram algo, e creio que todas as vezes foi a partir de uma experiência própria e intuitiva, do tipo “eu sinto que”. Apesar da farta bibliografia disponibilizada, só leram o que eu mandei ler: não há mais o conceito de autonomia de pesquisa, de curiosidade, de vontade de saber.

Bem-vindos ao um mundo em que os alunos, além de não falarem, lêem superficialmente, quando lêem. E que lêem o que lhes é imposto.

Sigo tentando compreender esse mundo estranho, mas não há sociologias que me o expliquem. Há confabulistas, que dizem que isso se deve à internet e a uma cultura que mistura superficialidade com fragilidade na nova geração. Pode ser, mas as pesquisas que dizem isso são também superficiais. Há que considerar a extrema vulnerabilidade psicológicas das gerações mais recentes. Mas a que isso se deve? E eu gostaria muito de entender o que está acontecendo, porque sem entender não tenho como ajudar, ou adaptar meu trabalho para que ele funcione melhor.

De qualquer forma, é preciso sobreviver a esse estranho mundo. Nunca foi tão cansativo ser professor, mas é preciso sobreviver. Aqui e ali vamos experimentando para ver se eles ficam mais estimulados, independentes, seguros, interessados. Aqui e ali… pontualmente.

O viajante literário em Londres 4: Tennyson e Thackeray

Prossigo meu turismo literário em Londres. Parto a 9 Upper Belgravia Street, Belgravia, onde morou Alfred Tennyson (1809-1892). Conhecia bem o percurso, um de meus caminhos eventuais, numa região de boas pies and pints.

Tennyson. Cantabriano, platônico, assonante, atormentado Tennyson…

Efetivamente, fui conhecê-lo em Londres, lendo algo a seu respeito num jornal quotidiano. Fui ler sua obra mais falada, In Memoriam A.H.H., esse longo poema, escrito durante 17 anos, em homenagem a seu amigo, condiscípulo em Cambridge, Arthur Henry Hallam, noivo de sua irmã, falecido precoce e repentinamente de uma hemorragia cerebral.

Um poema estranho, mas que se torna compreensível em seu contexto e em seus propósitos: questionar a sociedade vitoriana e colocar em pauta os grandes temas da liberdade humana, inclusive a sexualidade, principalmente o tabu da homossexualidade, e, igualmente, a questão do agnosticismo. Não vamos, porém, atribuir-lhe bandeiras que ele não defendeu, mesmo porque era outro o contexto cultural.

No que tange ao seu agnosticismo, deve-se reconhecer haver, em Tenysson, uma relação dominante com o mundo natural, uma dinâmica ancestral que ele herda, muito forte na formação histórica da Inglaterra, de relação com a natureza. Isso produz um panteísmo de ordem mítica, sempre presente na sua escrita e isso afora a pura crítica da fé, na sua forma religiosa: “Existe mais fé na dúvida honesta (…) que em metade das religiões”, diz ele. 

Já no que tange à questão do homoerotsimo, é preciso perceber que no tempo de Tenysson ainda não havia, ao menos na Inglaterra, a associação da homossexualidade como uma figura identitária e social específica. Ademais, sabe-se muito a respeito da longa (de séculos) influência do platonismo cantabrígio (ou seja, referente à Universidade de Cambridge), concebido como amor casto, mas de devoção, entre os alunos dessa instituição.

Lí com muito interesse o poema The Charge of the light brigade – embora menos pela música de Iron Maiden de que pela Guerra da Criméia, sempre interessante para quem estudou comunicação. Nunca palavras inicias lembraram tanto o galope de cavalos partindo para o ataque, ainda crentes na vitória:

Half a league, half a league,

Half a league onward,

All in the valley of Death

Rode the six hundred.

Digam se a sonoridade desses versos não produzem galopes num campo de batalha. Tennyson ecoa Keats, como se sabe, contempla a natureza, busca a musicalidade da palavra, evoca as lendas do campo e da floresta e alitera tudo o que pode.  E nunca houve poeta mais assonante do que ele.

Bom, para concluir, há a mushroom pie do The Alfred Tennyson Pub, ali perto, no 10 Motcomb St. Experimentei-a depois da visita a sua casa.

E, não distante dali, alcancei 16 Young Street, Kensington, onde viveu o grande, o sensacional, o intrigante William Makepeace Thackeray (1811-1863) – que de fazedor de paz, apesar do nome, não possuía muito. Fachada térrea em branco, pavimento superior feito daquelas pedras que imitam tijolos, tão comum na vizinhança e a casa em frente a um pequeno parque de bairro. Mais tarde visitei sua morada posterior e eterna, seu túmulo em Kensal Green, o cemitério gótico londrino, vizinho de minha casa nessa cidade.

Bom, o que me interessa em Thackeray é sua influência sobre Machado de Assis. Uma influência discreta e mediada, certo, mas decisiva no que tange a “princípio da reserva” – depois explico.

Deixem que reúna elementos, antes, para explicá-lo. Em seu tempo, quando alguém se matriculava em Cambridge, seu nome era escrito num grande livro e seguido, quando não se vinha de uma linhagem nobre, com um cortante termo latino que excedia pela mácula: ne nobilitate. Creio que Thackeray observou profundamente essa marca de identidade, essa e outras, e que isso está na base da sua literatura. A Fogueira das Vaidades é um monumento discreto da desconstrução e à crítica da pretensa nobilitate. Nesse e em outros livros, a sua ironia é devastadora, e mais ainda porque possui reservas. Ah, as reservas de Thackerey… Ao não dizer tudo, diz mais ainda.

É assim que vejo a obra de Thackeray, como uma arte de eloquentes reservas.

Um outro exemplo mais formal e técnico disso ocorre quando o romance começa fazendo crer que sua personagem principal, em torno da qual a história caminhará é Amélia Sedeley, ou melhor Emily, como todos a chamam. Seguimos sua história e, lá pelas tantas, repentinamente, o narrador se dá conta de que “she wasn’t a heroine“. After all, after all… E Emily sai do centro, que passa a ser ocupado por Beck Sharp, o oposto da insossa Emily.

Penso que Thackay alegoriza, com essa mudança de foco narrativo, o próprio espírito do disse-me-disse, da fogueira das vaidades que sustenta seu romance. Quando li esse romance eu devia ter uns quinze anos de idade e achei essa mudança de foco narrativo um erro grotesco, uma vulgaridade literária inominável, mas hoje percebo do que Thackeray realmente estava falando.

Aos quinze anos acreditamos na voz que narra uma história e desacreditamos das vozes que narram essa voz narradora. Recordo que li com imensa má vontade o restante do livro e até acho que não cheguei a concluir a leitura. Não estou certo disso, mas tenho certeza de que pulei páginas e páginas, achando Thackeray um contra-autor, um des-autor, um canalha. Hoje, um pouco mais maduro, compreendo bem a sutileza do seu estilo e recuperei meu respeito por ele.

E, isto dito, voltemos ao que acima chamei de “princípio da reserva”. Trata-se daquilo que permite ao autor de se calar, repentinamente, depois de reunir os elementos para que as coisas sejam compreendidas. Trata-se do vai-de-si dos fatos agregados. Talvez, a diegese. Talvez, a hantologia.

Hoje acredito que a literatura mais incrível que há é a que fala das narrativas e dos silêncios que narram os fatos e os ruídos. Uma forma de prudência, de discrição, de generosidade mas, também… de ironia. E é por isso que compreendo o quanto Thackeray ecoa em Machado de Assis: ambos foram ne nobilitatem. Ambos possibilitaram os elementos para que o futuro implodisse o passado.

E ambos me fazem pensar a respeito de como a literatura é, em resumo, um dispositivo para que, sugerindo (ainda que discretamente) o presente, permita que o futuro imploda o passado.

Num tempo em que muitos autores supõem que dizer é explicitar, esclarecer, objetivar, mostrar, exibir, há uma grande lição na literatura de Thackeray (e de Machado de Assis): a literatura, antes, sugere, pisca os olhos, toca discretamente com uma pena.

Artigo do prof. Paulo Nunes sobre O Réptil Melancólico

O professor Paulo Nunes, da Universidade da Amazônia, publicou um artigo sobre meu livro O Réptil Melancólico na revista digital Variações, dedicada à literatura contemporânea. O texto, “O Réptil Melancólico: Narrar (e ler) na certeza de que ‘toda consciência é miserável’”, pode ser lido aqui, no site a revista.

Cartas ao leitor 4: Papo-furado e marcadores ilocucionais da identidade

Carxs, bom dia e boa semana!

Quando nós morávamos na França e eu ia buscar o Pedro na escola (menos às quartas-feiras), participava alegremente – e com um curiosidade antropológica que não devia estar preenchendo os espíritos próximos – dos rituais de cumprimento comuns entre os pais: bonjours, comentários generalistas sobre o clima, referências superficiais ao estado de conservação do lugar e indicativos vagos como « lá vêm eles ! », « está na hora ! » ou « os exames estão chegando ! ».

Tudo muito vago e superficial. Não era questão, jamais, de falar de política, de um filme ou de nosso estado espírito.

Praticávamos todos uma retórica vaga, a enunciação de frases prontas que sequer demandavam, realmente, uma resposta. Détours rhétoriques

Comecei a perceber que havia muito mais em torno daquele papo-furado. Nenhum papo-furado é, realmente, anódino e impune. Eles cumprem uma função social maior, de agregação, de marcação da identidade, de produção do ritmo social da vida em comum. Dizer que o clima estava frio, ou quente, ou lembrar que “está quase na hora” da saída das crianças não eram, unicamente, frases vazias que preenchiam o tempo. Eram muito mais: eram pactuações cortezes da existência em comum. Era entrar em comunidade. Era confirmar que partilhávamos uma experiência.

Mais tarde, percebi que esse papo-furado está presente em todo lugar (embora não em todos os lugares…) e que é uma parte vital da nossa vida social, provavelmente em todas as culturas e linguagens.

Isso tem a ver com Heidegger e com sua tese sobre a ek-sistência, precisamente a percepção de que não há Dasein (Ser-aí) sem Mitsein (ser-com-outros), inclusive (ou sobretudo) na vida quotidiana e banal, onde o estar-junto num horizonte possivelmente comum (o milieu, como dizem os franceses) se projeta em permanpencia: um lançar-se fora de si que precisa ser, o tempo todo, ensaiado, testado, repactuado.

E isso lembra também o filósofo japones Tetsurō Watsuji, primeiro grande leitor de Heidegger no Japão (e muitos se sucederam) que, inclusive, começou o seu grande livro Fûdo, de 1935, falandi sobre a banalidade da partilha da experiência climática do frio. Watsuji elabora um elogio da experiência banal e do diálogo banalizado: seriam eles, diz, vitais para a existência social, porque procedem sem nenhum olhar sobre o estado psicológico e profundo do interlocutor – exigido na conversação mais séria ou objetiva.

Pensando nessas coisas, me ocorreu lembrar o quanto é importante o quotidiano e, nele, o dizer-por-dizer, o falar-por-falar, o estar-por-estar, o ser-por-ser. O quanto é vital estar no mundo sem pulsões de consequencialidade.

É a partir dessa percepção que, o tempo todo, escapo dos grandes saberes, dos triunfos inter-pares da vã Academia, das teorias do discurso e das hierarquias determinativas do ser. E por quê estou dizendo tudo isso. Ora, porque já se passaram estes dias de festa e de estar à toa e à feliz mercê da imperfeição do mundo e, portanto, estamos recomeçando a lida na selva dos sentidos perfeitos, onde dizer “Bom dia” ou “Está quente, hoje, hein,” é, também, uma simples e “perfeita” ilocução…

Nos rastros do Réptil 2

A artificialidade não conduz ao artifício. E nem o contrário. Apesar da aparência entre os termos, eles levam a coisas diferentes e até opostas. A artificialidade, o artificial, pretendem à factibilidade, e, por isso, evocam a aparência. Demandam a ambivalência e namoram a aparência.

O artificio, por sua vez, pretende ao caminho. O artifício é fático. Não é um juízo de valor e não é um dispositivo da ética. É um instrumento operador de antídotos para os venenos da artificialidade. A função do artifício é desvendar e eventualmente desmascarar, a artificialidade.

A artificialidade é ornamento, embelezamento, enquanto o artifício, como nos diz Baudelaire, “n’embelli(t) pas la laideur et ne (peut) servir que la beauté”.

O artifício desconstrói a artificialidade, tal como o relativo e a teoria da relatividade desconstroem o relativismo. Na mesma medida, uma coisa é a máquina, e outra, a maquinação. Na mesma medida, os dispositivos cênicos do teatro despem e desvelam as cênicas e a teatralidade da vida e da alma das pessoas e dos mundos.

Da mesma maneira procede a alegoria. A alegoria é um dispositivo fático que foge da ética e dos juízos para desvelar o mundo.

Elza Soares: personagem, política e música

Não tenho nada novo a dizer sobre a partida de Elza Soares, além de lamentar a sua perda, registrar minha imensa admiração por seu trabalho e por ela própria e mencionar sua importância não apenas para a cultura, mas para a sociedade brasileira.

Além do tanto que está sendo dito, só posso registrar o quanto me impressionam duas coisas: 1) a força de seu personagem público nos últimos anos 2) A musicalidade por trás desse personagem.

Refiro-me à fase, ou melhor ao conjunto de fases de Elza Soares iniciadas em 2002 com o CD “Do Cóccix Até o Pescoço” e, particularmente com a canção “A Carne”. O verso “A carne mais barata do mercado é a carne negra” é uma das coisas mais importantes da cultura brasileira, nos últimos tempos, por tudo o que representa. Composição de Seu Jorge, Marcelo Yuka e Ulisses Cappelette, “A carne” vai perdurar por décadas no imaginário brasileiro – e não apenas no imaginário musical. Nada retrata melhor o racismo estrutural do que a interpretação de Elza para essa letra.

Cabe dizer que, por trás dessa interpretação e desse CD, tem a produção de José Miguel Wisnik, que colocou no trabalho de Elza sonoridades, como o hip-hop, que reorganizaram sua carreira e sua imagem. Sim, a política começa quando a ação adere à realidade. E nesse disco Elza adere à realidade até mais do que a política o faz.

O disco “A Mulher do Fim do Mundo”, de 2015, é visto por muitos como a inauguração da fase final do trabalho de Elza, mas não deixa de ser, acho, uma continuação e renovação do percurso iniciado pela guinada de 2002. E digo isso com toda reverência, encantado pela maneira como o posicionamento político, social e cultural da grande cantora ganhou nitidez. E isso em tempos dos mais imperfeitos, obscuros e insensíveis da história do Brasil.

 O disco “Planeta Fome”, de 2019, seu último trabalho, é o fechamento do longo ciclo iniciado no começo da sua carreira, com a famosa resposta dada a Ary Barroso no seu programa de calouros: “Nossa, de quem planeta você vem, menina?”, “Venho do planeta fome”.

Certo, desde sempre Elza Soares foi uma força da natureza, uma presença forte e instigante e uma voz maravilhosa, mas a idade, a experiência e a sintonia com a época tornaram-na, nestes últimos tempos, um personagem público, político, da maior importância no país. E, o que é incrível: um personagem feito de música.

O viajante literário em Londres 3: Shelley e Scott

Com assombro e desassossego diante da ciência desci na estação Sloan Square e caminhei em direção ao 24 Chester Square, onde Mary Shelley viveu, de 1846 até seu último ano de vida, 1851. Cheguei esbaforido e conferi: lá estava a plaqueta azul do English Heritage.

Hoje em dia Mary Shelley (1797-1851) é uma personalidade intrigante e todo mundo quer saber um pouco mais sobre ela. Quando estávamos morando em Londres, sua famosa novela, Frankenstein, completou duzentos anos e isso evidenciou tal interesse.

Folheando sua biografia In the search of Mary Shelley: The girl who wrote Frankenstein, de Fiona Sampson, percebo o quanto ela se torna um dos mitos urbanos da Londres atual. Mas também o quanto a experiência urbana de Londres se faz presente na sua obra.

Por exemplo, quando Mary Godwin – posteriormente Shelley – era adolescente e vivia nas proximidades do mercado de Smithfield, um de seus braços foi repentinamente tomado por uma misteriosa doença. Pelas informações que chegaram a nossos dias, tratava-se de uma psoríase agressiva, ou um severo eczema. Nada de muito grave, mas a impressão que esse evento gravou na mente da menina tornou-se um dos mais incríveis predicativos de uma obra literária futura. A experiência de ver seu braço sendo tomado “like a monstrous appendage stitched from some other body on to her own” foi o mais puro antecedente de Frankenstein.

A literatura estava lá, nas impressões da menina, e foi permitida pelo dispositivo do casamento com Percy Bysshe Shelley, advogado ateu e adepto do amor livre, grande poeta e amigo do mítico lord Byron.

O livro foi escrito, como se sabe, entre o outono de 1816 e dezembro de 1817, quando o casal, mais lord Byron e outros amigos alugaram uma casa no lago de Genebra – pasmem, a vila Diodati, casa pertencente ao meu antepassado materno Carlo Diodatti – e possuo uma gravura dela, afixada numa parede da minha casa.

Conta-se que, no momento da escritura do livro, Mary conviveu com alguns eventos corporais importantes: o nascimento de sua terceira filha, Clara, e o suicídio de sua stepsister Fanny Imlay e o suicídio da primeira esposa de Percy Shelley, Harriet, que foi encontrada afogada no lago Serpentine, no Hyde Park, em Londres.

Tudo em Mary foi corpo, com o complemento de alguma alma.

Tudo foi, igualmente, mundo.

Ao contrário, dentre muitos, de Sir Walter Scott, para quem, antes do mundo, havia o aqui.

Scott não morou em Londres, mas resta um dos grandes autores de língua inglesa da história e, penso, Londres é permeada por certa ausência de Scott. Certo, vocês podem pensar que isso é apenas um pretexto para eu falar de Scott nestas crônicas, mas realmente penso que há essa ausência, sempre presente. Desconfio que a literatura inglesa, embora seja muita coisa, é, também, uma ressentida ausência de Sir Walter Scott.

No começo do século XIX, a imensa popularidade das obras de Sir Walter Scott mostrava que a literatura podia ser, ao mesmo tempo, educativa, divertida e transcendental. Sua fama foi imensa em todo o Reino Unido e aumentava à medida em que suas interpretações da história e da mentalidade escocesas adentravam na imaginação popular. O próprio rei George IV foi seduzido por sua escrita a fama, a ponto de pedir de Walter Scott encontrasse, no castelo de Edimburgo, as chamadas “Honras de Escócia”, uma caixa com joias preciosas, perdida havia cem anos dentro do prédio – o que ele fez.

A literatura de Walter Scott era (é) aqui, antes de ser mundo. E isso resta como grandes marcas desse autor. E embora a Escócia seja prolixa terra de aquis, ela sempre, como todos sabemos, se dissemina pelo mundo.

Recordo meu primeiro encontro com ele: Lincoln Center, Nova York, ópera La dona del lago, de Rossini, libreto de Andrea Tottola sobre o poema The lady in the lake. Andares altos e pouco custosos, mas com visão excelente, inverno de 2015.

Londres não tem muita coisa da transcendência de Walter Scott. Paris a tem. Paris é lugar, enquanto Londres é mundo. A transcendência de Londres é a da cidade-mundo. Londres é Mary Shelley. Londres é máquina, cyborg, híbrido, Prometeu acorrentado que de repente fica livre. Mas Londres também é essa incrível lacuna de um, ou muitos, aquis.

Martin Luther King’s Day

Ontem, 17 de janeiro, foi o Martin Luther King’s Day, “MLK Day”, feriado nacional nos Estados Unidos. Seu legado, na luta pelos direitos civis e pela igualdade entre as pessoas, continua mudando a história e merece ser referido num Brasil que tolera a extrema desigualdade racial e que tem um jornal de grande circulação que (irresponsável e criminosamente) fala em “racismo reverso”.

Um pouco do que li e vi por aí no MLK Day:

The Harvard Gazette: Rescuing MLK and his Children’s Crusade

Princeton University Library: Uma seleção do catálogo dessa biblioteca com trabalhos falando sobre MLK

Harvard Law School: Remembering Dr. King Through His Own Words (uma excelente coleção de vídeos com falas, discrusos e entrevistas de MLK

Yale University Library: The life of Martin Luther King Jr (ilustração digital)

Yale University: Yale events explore legacy of Martin Luther King Jr.’s quest for justice (links para os vários eventos, videos e seminários da Universidade de Yale sobre MLK)

Chang Confucius: Uma homenagem no piano (que vi no Twitter) a MLK

The Golden State Warriors: Homenagem da equipe de basquete a MLK

National Today: Um hotsite, com informações e uma linha do tempo de MLK

Google: O doodle do MLK Day 2022

Boston City TV: Um especial sobre MLK, reproduzido no YouTube

“…Nossas vidas começam a acabar no dia em que nos calamos sobre as coisas que importam…”

#MLKDay

Cartas ao leitor 3: Tratar-se com Sêneca em tempos dostoievskianos

Pueblo de mi comunidad,

Afetos a todos e todas,

Ahahah, começo rindo, mas um pouco alarmado. Avança a ameaça Omicron, certo, e eu aqui, novamente com Covid, pensando na febre de Petrov. Pior: rindo quando lembro de Dostoievski. Sinal de tempos estranhos: quem pode rir, quando lembra de Dostoievski? Quem pode rir, tomado pela Covid? É minha segunda contaminação, mas felizmente as três doses da vacina, que já tomei, a tornam rarefeita. Padeço menos e depois de quadro dias os males começam a partir. Sobra o estranho mundo.

Sim, o mundo anda muito estranho; inclusive eu, que estou dentro dele, ando estranho. Provavelmente não se ri do mundo, nestas circunstâncias. Provavelmente. O que confirma que continuamos estranhos, dentro de tempos estranhos.

É que vi, por estes dias, o filme A febre de Petrov, do cineasta russo Kirill Serebrennikov. Um filme que fala de pandemias. Não da Covid 19, até porque ele foi feito há uns 20 anos.

Adaptado de um romance de Alexeï Salnikov, conta a história de uma homem doente e solitário que se trata com… vodka. Sim, a bebida que não tem gosto e que, como se diz, é a bebida ideal para quem não gosta de beber.

E isso tem a ver com Dostoievski. Tudo remete a Fiodor Dostô, tanto nesse filme como nestes tempos estranhos – cabendo lembrar que, em 2021 celebraram-se os 200 anos de seu nascimento.

Tal como nas obras de Dostô, há medo, desilusão, nervosismo, falta de ar e o entrever da canalhice humana.

Vivemos tempos incertos e dostoievisqueanos. E é nervoso esse riso que ri de nossos tempos.

Como todas as vezes em que li Dostô precisei de uma dose de Sêneca (pois nenhuma vodka seria suficiente para resolver essas coisas), desta vez, outra vez, corri para o meu amado Sêneca, mestre das minhas incertezas existenciais.

Façamos silêncio, com Sêneca. E vamos, até mesmo, parar de rir.

Sim, é difícil. Como avisa o filósofo, nenhum silêncio se conquista com luta, seja porque o universo é ruidoso, seja porque nós, humanos seres, tendemos a ser mais ruidosos até mesmo que o universo. Segundo Sêneca, o barulho está na nossa natureza mais profunda.

Sigamos seus conselhos e vamos, primeiramente, escutar o silêncio que habita a nossa profundidade. Silêncio não é não dizer, é ouvir o outro e ouvir em paz o barulho do mundo.

Em seguida, aprendamos a impor, sem nenhuma violência, o silêncio aos outros. Por mais que isso seja difícil na cidade de Belém, que se bate e se agita na pulsão natural do universo… Por mais que isso seja difícil no Brasil de Bolsonaro, que quer não escutar o outro e nem o universo…

Desistamos…

Somos seres contraditórios. Para nós, a literatura é por vezes silêncio; e, por vezes, ruído….

Boa semana a todxs.