Terça, dia 14/06, estarei em Paraty conversando sobre O Réptil

Próxima 3a-feira, dia 14 de junho, estarei em Paraty, RJ, discutindo “O Réptil Melancólico” com o Clube de Leitura do Sesc. Será a terceira seção de conversas sobre o livro, lá em Paraty, agora com a presença do autor. As outras duas ocorreram nos dias 31 de maio, 04 de junho passado. Muito legal essa programação – um “esquenta” para o festival Literário Arte da Palavra, que acontece em Paraty em julho – e no qual também estarei presente – e para a Flip, que este ano acontece em novembro (quando espero estar outra vez por lá).

Horário: das 19 às 21h

Local: Sesc Santa Rita – R. Dona Geralda, 320

Centro Histórico, Paraty – RJ

O Réptil lido por Wellington Rafael

Wellington Rafael, no seu perfil no Facebook

Depois de muito tempo sem postar minhas leituras, o que farei nas próximas semanas, posto aqui a leitura desse livro que me fascinou: O Réptil Melancólico de Fabio Fonseca Horácio-Castro.

Poderia começar falando que o livro é vencedor do prêmio sesc de literatura, mas quero falar mais. Que é um livro fascinante.

Certa feita ouvi dizer que um livro bom é aquele que já nos prende pelo seu prólogo, como Cem Anos de Solidão; A Metamorfose; Grande Sertão; Anna Kariênina, etc. E é o que acontece com O Réptil Melancólico, que já nos fascina logo em sua abertura.

Uma leitura fluida, que nos prende, cujo o enredo gira em torno de Felipe, que foi pra o exílio na Ditadura militar com sua mãe, sem ser perguntado se queria, ou não (as entrelinhas são maravilhosas), mas que quando tem a oportunidade retorna a sua casa do Anfão.

Quando estava lendo, tive a sensação de algumas influências e referências a Cem Anos da Solidão, e quando leio a quarta capa, a surpresa, Marcos Peres diz que o Anfão se avizinha de Macondo.

Enfim, poderia dizer mais sobre, mas deixo agora para que vocês mergulhem nesse livro e se encantem.

Aproveito para dizer que dia 30 de maio (segunda-feira) teremos um encontro com ele às 19h no Sesc de Poços de Caldas para um bate-papo.

Encerro como sempre dizendo que esse livro me acrescentou e aumentou um pouquinho à vida.

“Se diante disso, meu Deus, tu me enches de paciência, se diante da persecução banal da história do quotidiano, tu me dás um rasgo de afeto, se me dás também a generosidade, eu te pergunto, se o puder, meu Deus, por que fizeste de mim um fraco?”.

CASTRO.__ In: O Réptil Melancólico, 2021. p. 374.❤️📚🍷🦎

Apresentação de Luci Collin para O Réptil Melancólico

Aqui a carne da memória sussurra histórias e nos instrui: não há leituras secundárias. Incursionamos por países secretos, atravessamos pequenas almas na pátria dos exilados, num recontar de quando se nasce com toda a história já decidida e a vida demanda reescritura.

A lenda é de um réptil, que vai por dentro – na azulejaria, em poços ou espelhos. Predestinado a olhar, nos confronta com a moral familiar, os simbolismos, as muralhas do espírito. Chega-se ao Anfão e ao velho Malaquias; ao Felipe à procura de João; ) mãe presa e torturada; à avó lembradora; aos homens crescendo em cidades (aladas) que não são suas. Recordações centrífugas e centrípetas. E sussurros: Miguel e cães invisíveis, serpentes icéfalas, lêlures vermelhas. O réptil vaticina que se mora tanto em casas quanto em pensamentos.

Crônicos paradoxos. Lisboa e a Revolução dos Cravos; Paris, pátria superposta; e o que pode ser o Brasil (uma pergunta?). O Estado cínico, as causas ganhas/perdidas, o nunca acontecido. A pragmática da colônia eterna. Utopias cruas. Abraços que garantem o consentimento para se ter um passado. Modo de se fazer: demolir os lugares da memória? Ser uma história-que-não-foi? E: qual é sua origem?

O réptil se completa na prática do jogo. Sem busca, desaparecerá, será silenciado, ou se transformará num homem arrogante em ternos brancos. Pois jogue. Este O réptil melancólico nos enseja um mundo de percepções inegavelmente corajosas e necessárias.

Luci Collin

Nos rastros do Réptil 5

Há 50 anos teve início, nesta data de 12 de abril de 1972, a guerrilha do Araguaia. No Réptil Melancólico, é um tema importante, embora tratado de maneira oblíqua, como é a proposição narrativa e estética do livro. Selma, uma das personagens centrais, tem duas experiências de tortura, que marcam profundamente um dos principais narradores da trama, seu filho, Felipe. Seu percurso de vida é uma tentação narrativa e uma experiência central, absorvente, para mim. 

Passei uma parte da infância ouvindo histórias de tortura, que aconteciam ao meu lado e se vinculavam aos contos de terror que, paralelamente, habitavam meu universo: contos da cosmogonia amazônica, contos da floresta negra, fábulas góticas da Ibéria medieval, os contos de Canterbury e todas sorte de monstros, passíveis e impossíveis. Mas a ditadura milutar era o grande monstro. Em nosso abrigo, nossa casa afastada de Belém, cercada de mata, lago, silêncio e distância, escondíamos, muitas vezes, algumas pessoas. Alguns deles vinham do Araguaia, e outros e outras e outras e outras lutas, dentre as muitas que se faziam como a melhor esperança de acabar com a ditadura militar corrupta e abjeta que nos envolvia. Como foi a sua tortura, eu lhes perguntava, com seis, sete, oito anos de idade; e o relato deles é uma das partes mais importantes do Réptil.

Nos rastros do Réptil 4

A atualidade é algo fútil e fugaz, mas é algo que é mais intensamente do que muitas coisas que duram e que são sérias. Colocar em itálico essa condição de ser, esse é, constitui em evocar uma temporalidade: o intenso é temporal. Não uso o termo temporal como duração no tempo, mas como intensificação do tempo. O evento, o fato, o acontecimento – em síntese, a política – intensificam o tempo presente e, assim, igualmente, o real. Esta é a sua temporalidade.

Os filósofos e os cientistas sociais sempre se mostram desconfiados diante de tudo o que lhes parece efêmero e evanescente. Coisas como a política e a comunicação (para não dizer o jornalismo) são, essencialmente, isso: o entender efêmero e evanescente do mundo.

Porém, Hegel diz que a consciência deve, necessariamente, se confrontar com o elemento histórico: aquilo que se apresenta à consciência, o mundo que se apresenta à consciência. Hegel não fala, necessariamente, aqui, do passado, mas daquilo que faz parte da realidade material do mundo do presente, sendo ao mesmo tempo produto e destino da história.

Concordaria com Hegel, não fosse a sua posição de fala pretender a uma certa ética do dever-ser. Indo além de Hegel, creio que a história se faz também presente em tudo aquilo que é efêmero e evanescente. E, igualmente, não creio que toda inteligência devenha de um confronto.

Vivemos sempre sob intensos temporais de história. A história intensifica-se, também na efemeridade e na evanescência.

Artigo do prof. Paulo Nunes sobre O Réptil Melancólico

O professor Paulo Nunes, da Universidade da Amazônia, publicou um artigo sobre meu livro O Réptil Melancólico na revista digital Variações, dedicada à literatura contemporânea. O texto, “O Réptil Melancólico: Narrar (e ler) na certeza de que ‘toda consciência é miserável’”, pode ser lido aqui, no site a revista.

Nos rastros do Réptil 2

A artificialidade não conduz ao artifício. E nem o contrário. Apesar da aparência entre os termos, eles levam a coisas diferentes e até opostas. A artificialidade, o artificial, pretendem à factibilidade, e, por isso, evocam a aparência. Demandam a ambivalência e namoram a aparência.

O artificio, por sua vez, pretende ao caminho. O artifício é fático. Não é um juízo de valor e não é um dispositivo da ética. É um instrumento operador de antídotos para os venenos da artificialidade. A função do artifício é desvendar e eventualmente desmascarar, a artificialidade.

A artificialidade é ornamento, embelezamento, enquanto o artifício, como nos diz Baudelaire, “n’embelli(t) pas la laideur et ne (peut) servir que la beauté”.

O artifício desconstrói a artificialidade, tal como o relativo e a teoria da relatividade desconstroem o relativismo. Na mesma medida, uma coisa é a máquina, e outra, a maquinação. Na mesma medida, os dispositivos cênicos do teatro despem e desvelam as cênicas e a teatralidade da vida e da alma das pessoas e dos mundos.

Da mesma maneira procede a alegoria. A alegoria é um dispositivo fático que foge da ética e dos juízos para desvelar o mundo.

Nos rastros do Réptil 1

O tema do exílio, claro, é central no livro. Exílio tende a dizer uma experiência de atopia, a ausência de espaço, mas essa experiência não existe, de fato, sem uma paralela acronia, a ausência de tempo. Viver longe do seu lugar é, também, viver sem acompanhar o tempo do seu lugar.

Essa dialogia evoca Bakhtin e seu bem conhecido conceito de cronótopo – o tempo-espaço como unidade de análise da criação literária – mas apenas como um referente. Para dizer o exílio, com sua atopia e acromia co-referentes, o cronótopo não faz sentido. Seria preciso algo como uma acronotopia. Todo exílio é acronotópico.

Certo, também se poderá ver, aqui, a ideia de cronótopo, porque, dirão, a cronotopia não deixa de ser uma acronotopia – à medida em que idealiza um não-lugar e uma não-temporalidade que, pela via da enunciação acabam por se tornar lugar e temporalidade. Mais ou menos. O conceito de temporalidade, em Heidegger e em outros filósofos, não concebe temporalidade como uma experiência do tempo físico, tal como o ser não é, simplesmente, um sujeito e o lugar não é, simplesmente, um espaço. Eis o caminho e a pista. Ademais, cabe lembrar que a acronotopia produz, igualmente, uma acromia: a ausência de tez, a ausência do rubro tempo e da vida coetânea. E por isso, o cronótopo não explica tudo, não explica o traço, o rastro, a ausência.