O Prêmio Sesc de Literatura anuncia os vencedores da edição 2022

Na categoria Conto foi selecionado o livro Corpos benzidos em metal pesado, de autoria do paraense Pedro Augusto Baía. Na categoria Romance foi premiada a obra Mikaia, de Taiane Santi Martins, do Rio Grande do Sul. Este ano, o Prêmio Sesc de Literatura recebeu 1632 inscrições, sendo 844 coletâneas de contos e 788 romances. Parabéns aos escritores! Ficamos por aqui contando os dias para ler os novos livros, que serão lançados em novembro pela Editora Record, parceira do Sesc no projeto.

Feliz de ver outro paraense recebendo esse prêmio. Com o Pedro Augusto Baía são 4!!

Para saber mais:
https://cultura.estadao.com.br/…/literatura,conheca-os…

Sobre Lygia

Partiu Lygia Fagundes Telles, aos 98 anos. 

Em 1996, em entrevista ao programa de televisão Roda Viva, lançou o código para este dia: “Quando a morte olhar nos meus olhos e disser ‘vamos’, eu digo ‘estou pronta, fiz o que eu pude'”.

Grande escritora e grande pessoa, grande dama, grande em tudo. Nome marcante do chamado pós-modernismo brasileiro – o momento literário que se seguiu ao modernismo, entrou delicadamente no campo literário, em 1938 – com o livro de contos Porão e Sobrado. Seguiram-se Praia Viva, em 1944 e O Cacto Vermelho,  em 1949 – vencedor do prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras. Esse prêmio lhe deu grande visibilidade e abriu terreno para o livro seguinte, uma explosão de estranha sensibilidade, marco de uma virada na carreira da autora, segundo Antônio Cândido.

Livro curioso, esse Ciranda de Pedra. à primeira vista, é uma narrativa fácil de acompanhar, bastante fluida, mas se se percebe bem, por trás dessa aparente facilidade tem uma narrativa paralela, cheia de metáforas, que se forma por meio do uso do discurso indireto livro, ecoando a voz interior de Virgínia, a personagem principal. Silviano Santiago chamou a isso de “linguagem alucinatória”. 

Uma voz anterior que traduz a passagem da imaturidade e da inexperiência para o amadurecimento, a aceitação do fato de que o mundo tem estranhezas, mistérios e injustiças. Uma passagem, porém, que se dá sem que se perda a honestidade.

Aliás, honestidade é uma das grandes marcas da obra de LFT. 

Isso se vê, sobretudo, nos grandes livros dos anos 1970: Antes do Baile Verde, de 1970; As Meninas, de 1973 e Seminário dos Ratos, de 1977. Honestidade, delicadeza e coragem. Três palavras que eu usaria para descrever sua obra. 

A coragem tem muitos exemplos. Um deles ocorreu naquele dia 25 de janeiro de 1977, quando Lygia foi a Brasília, juntamente com a escritora Nélida Piñon e o historiador Hélio Silva, para entregar ao ministro da Justiça da ditadura, Armando Falcão, um manifesto assinado por 1.046 intelectuais e artistas brasileiros. pedindo  o fim da censura e das demais restrições à liberdade de expressão. 

Essa mesma coragem se associa à honestidade e à delicadeza quando

Penso que LFT foi a primeira autora brasileira, a primeira mulher escritora, justamente com Ciranda de Pedra, a desvelar a raízes do patriarcado. E a enfrentá-lo. Como? Com a voz interior de Virgínia, com esse discurso indireto livre que oferece, à mulher Lygia, à mulher Virgínia, condições de resistência, intelecção, crítica  pela via do intimismo. 

Lygia Fagundes Telles foi uma grande escritora, com uma obra marcante. Foi também uma mulher admirável, inspiradora, um tanto enigmática.

Foi a 3º mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1985. Em 2016, aos 92 anos, tornou-se a primeira mulher brasileira a ser indicada ao Nobel de Literatura. E, apesar do relativo desdém da crítica a suas primeiras obras, inclusive ao mencionado Ciranda de Pedra, foi uma escritora bastante reconhecida, como atestam sua inúmeras premiações: os prêmios Jabuti, Camões, Juca Pato, Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, Biblioteca Nacional, troféus da União Brasileira de Escritores e da Associação Paulista de Críticos de Arte e vários prêmios fora do Brasil.

Marcel Proust: 150 anos de seu nascimento e 100 de sua morte

Um dos museus mais legais de Paris é o Carnavalet, que acabou de reabrir depois uma imensa reforma que durou cinco anos. Já conhecido por sua ala dedicada a Marcel Proust, que incluía uma reprodução detalhada – e com os móveis originais – do apartamento que o escritor habitava, antes de morrer, o museu reabre ao público com uma ampliação dessa ala e uma exposição temporária dedicada a ele: “Marcel Proust, um romance parisiense”, que retraça os passos do escritor em Paris, seguindo os do protagonista de Em Busca do Tempo Perdido.

A exposição temporária, que termina no próximo dia 10 de abril está detalhada no site do museu, na seção que pode ser consultada aqui, onda há, inclusive, um dossiê pedagógico muito bem feito.

A exposição faz parte das várias homenagens que estão sendo dedicadas a Proust desde julho de 2021, quando celebraram-se os 150 anos de seu nascimento, ocorrido no dia 10 daquele mês, e que seguem até novembro deste ano, quando, no dia 18, celebram-se os 100 anos da sua morte.

Na imagem abaixo, a “cama de Proust”, numa réplica do seu quarto, em exibição no museu – lembrando que foi deitado nela que Porust escreveu uma boa parte do seu grande romance.

A exposição tem duas partes principais: de um lado, a realidade da Paris habitada pelo escritor e, de outro, aquela imaginada em seus livros.

Anexo um vídeo feito por um visitante da exposição e disponibilizado no YouTube:

Isto considerado, cabe lembrar que, desde 2018 a Universidade de Illinois, no norte dos Estados Unidos, em parceria com a Universidade de Grenoble e com a Biblioteca Nacional de França começaram a digitalizar e segue gradualmente disponibilizando o acervo de todas a correspondência conhecida de Proust: cerca de 5,3 mil cartas. O acervo foi reunido por meio de um projeto de pesquisa do professor da Univ. de Illinois, Philip Kolb, que mapeou a existência de um total 20 mil itens da correspondência do escritor, 3/4 desse material estando perdido ou extraviado. A própria Universidade já adquiriu 1,2 mil cartas de Proust, perfazendo umas das maiores coleções do mundo com materiais do escritor.

Interessante observar como o conceito de“literatura epistolar” vem ganhando destaque nos estudos literários contemporâneos. Com essa perspectiva, uma correspondência privada não é um mero vetor de informações paralelas ao universo literário – sobre a vida pessoal ou as percepções sobre o mundo da época de um autor, mas parte mesmo de sua obra criativa. Esse acervo pode ser consultado neste endereço.

Thiago de Mello (1926-2022)

O poeta Thiago de Mello, falecido ontem, aos 95 anos, em Manaus, foi um paradigma da literatura amazônica – e da brasileira. Na verdade, foi uma voz latino-americana e, talvez, também dela um paradigma. Da literatura amazônica, em primeiro lugar, porque foi com ele que se consolidou a noção de “poesia das águas”, ou de “pátria das águas”, tão importante para a sensibilidade literária na região, nas últimas décadas.

Paradigma, também, da literatura brasileira, e não apenas por sua importância na literatura amazônica (que não é a mesma coisa), mas por seu militantismo e sua politização. Como muitos de sua geração, Thiago de Melo soube aproximar poesia de política. Tornou-se uma voz maior, poderosa e catalizadora, da resistência de esquerda. A publicação do poema “Os Estatutos do Homem“, no calor da imposição do Ato Institucional Número 1 (AI-1), em abril de 1964, constituiu um dos mais importantes impactos de uma poesia sobre sociedade brasileira. Algo que só acontece muito raramente e mais raramente ainda quando se constitui como impacto popular, crítico e político.

O poema, escrito quando Thiago de Mello já estava no exílio chileno, teve o peso de um manifesto pela razão humana e a favor da solidariedade universal.

Justamente outra constante da sua obra e aquela que o torna, ainda, um paradigma da América Latina. Thiago de Mello foi uma das vozes principais da integração e da cooperação latino-americana e revestiu-a com uma perspectiva amazônica que resta muito forte – afinal, o bioma amazônico integra mais países latino-americanos de que qualquer outro bioma do continente.

Sua poesia esteve sempre a serviço da questão ambiental, da atenção para com a condição humana e das grandes causas e direitos sociais. E isso não quer dizer foi “produzida” para essas causas, mas sim que traduzia os mundo que essas problemáticas desvelam ou obscurecem.

Importante definição da sua visão de poesia Mello deu-a num depoimento ao DOI-Codi, no final de 1977, logo depois de retornar ao Brasil. Disse aos militares que acreditava na “conscientização da massa” por meio da “poesia revolucionária”. Ato contínuo, foi classificado, pelo coronel que tomava o seu depoimento como “delinquente confesso”.

Recomendo a leitura da entrevista que Thiago de Mello concedeu a Rôney Rodrigues, republicada ontem no site Outras Palavras e também a crônica de Bernardo de Mello Franco, em O Globo, sobre a sua prisão, no episódio famoso dos “8 da Glória”.