Marcel Proust: 150 anos de seu nascimento e 100 de sua morte

Um dos museus mais legais de Paris é o Carnavalet, que acabou de reabrir depois uma imensa reforma que durou cinco anos. Já conhecido por sua ala dedicada a Marcel Proust, que incluía uma reprodução detalhada – e com os móveis originais – do apartamento que o escritor habitava, antes de morrer, o museu reabre ao público com uma ampliação dessa ala e uma exposição temporária dedicada a ele: “Marcel Proust, um romance parisiense”, que retraça os passos do escritor em Paris, seguindo os do protagonista de Em Busca do Tempo Perdido.

A exposição temporária, que termina no próximo dia 10 de abril está detalhada no site do museu, na seção que pode ser consultada aqui, onda há, inclusive, um dossiê pedagógico muito bem feito.

A exposição faz parte das várias homenagens que estão sendo dedicadas a Proust desde julho de 2021, quando celebraram-se os 150 anos de seu nascimento, ocorrido no dia 10 daquele mês, e que seguem até novembro deste ano, quando, no dia 18, celebram-se os 100 anos da sua morte.

Na imagem abaixo, a “cama de Proust”, numa réplica do seu quarto, em exibição no museu – lembrando que foi deitado nela que Porust escreveu uma boa parte do seu grande romance.

A exposição tem duas partes principais: de um lado, a realidade da Paris habitada pelo escritor e, de outro, aquela imaginada em seus livros.

Anexo um vídeo feito por um visitante da exposição e disponibilizado no YouTube:

Isto considerado, cabe lembrar que, desde 2018 a Universidade de Illinois, no norte dos Estados Unidos, em parceria com a Universidade de Grenoble e com a Biblioteca Nacional de França começaram a digitalizar e segue gradualmente disponibilizando o acervo de todas a correspondência conhecida de Proust: cerca de 5,3 mil cartas. O acervo foi reunido por meio de um projeto de pesquisa do professor da Univ. de Illinois, Philip Kolb, que mapeou a existência de um total 20 mil itens da correspondência do escritor, 3/4 desse material estando perdido ou extraviado. A própria Universidade já adquiriu 1,2 mil cartas de Proust, perfazendo umas das maiores coleções do mundo com materiais do escritor.

Interessante observar como o conceito de“literatura epistolar” vem ganhando destaque nos estudos literários contemporâneos. Com essa perspectiva, uma correspondência privada não é um mero vetor de informações paralelas ao universo literário – sobre a vida pessoal ou as percepções sobre o mundo da época de um autor, mas parte mesmo de sua obra criativa. Esse acervo pode ser consultado neste endereço.

O viajante literário em Londres 6: Dickens e as fronteiras do mundo

Dickens não nasceu em Londres, mas foi a síntese de Londres. E foi a síntese de uma época de autoreflexividade que tinha, em Londres, seu grande espaço de produção. A Inglaterra vitoriana tinha um imenso apetite por ficção e, nesse contexto, vários autores buscavam a independência financeira escrevendo num lugar que permitia, inclusive, espaço para mulheres autoras, como comprovam as irmãs Brontë, Jane Austen, Frances Burney e Maria Edgeworth. Nesse tempo as novelas publicadas em penny-paper e os folhetins de jornal podiam influenciar mais a opinião publica do que panfletos, e a literatura funcionava como uma espécie de voz reflexiva do debate, como o adversarial principle – essa voz constante da consciência, sempre autocrítica de si mesma, sempre em dúvida a respeito de nosssas certezas, que tanto falta aos nosso mundo.

Mas é certo que tudo isso tenha paralelos.  Síntese de Londres, ou de uma certa Londres, Dickens o foi, evidentemente. Mas sempre com paralelos. A autoreflexividade o demanda. Por exemplo, na eterna comparação entre a Londres de Dickens e a Paris de Balzac…

Ou na autoreflexividade que invadiu Londres, quando Dickens morreu. Nove de junho de 1870. A rainha Vitória entrou em prantos, por um lado. E, de outro, uma garotinha pobre que vendia frutas em Drury Lane, conta P. Collins em « The popularity of Dickens », publicano na Dickensian, número 70, indagou : « Isso quer dizr que Papai Noel também vai morrer ? ».

Era um sintoma. Os contos de natal de Dickens eram uma leitura obrigatória nos pubs, nos mercados, nas casas humildes e também nos castelos. Pelas bandas do East End – Houndsditch, Whitechapel, Aldgate, Spitalfields – na noite de natal, por um centavo se ganhava uma xícara de chá e o direito de ouvir a leitura desses contos. Londres lia pelos ouvidos. E enquanto o mundo católico frequentava a missa do Galo, Londres frequentava Charles Dickens.

Reflexividade é isso. Dickens doi um desvelador (um criador?) dos signos bárbaros da modernidade e do capitalismo. E nesse sentido Dickens, mais do que ninguém, cotejou a dicotonia das classes, da produção social da riqueza e da produção social da pobreza, mais do que ninguém – inclusive Balzac. Ninguém desenhou melhor o contraste tão precário entre « the purlieus of the rich » e « the slums of the poor ».

Ninguém descreveu tão bem os monstros que vagam nessa fronteira, capturando alimento ora de um lado, ora de outro. Aliás, nesse aspecto, cabe evocar André Maurois: “Je crois que l’aptitude pour créer des monstres est souvent le signe du grand romancier”. Ou seja: conhecemos os grandes romancistas por meio de sua capacidade de criar monstros.

Atividade particularmente fácil quando o espaço literário é a cidade de Londres, porque no meio do brouillard de Londres, as formas mais simples se tornam monstruosas.

E Dickens é um especialista nesse quesito. Dickens tem uma capacidade de justapor suas frases com uma rítmica que se desenvolve como a sensação de um labirinto. Uma hora cá e outra lá, de cada lado das muitas fronteiras da literatura.

E não só nas suas construções frásticas e parafrásticas. Igualmente nas tramas de suas histórias.

Jamais esquecerei do impacto profundo que foi, na minha vida, a leitura de The Great Expectations, quando Dickens me surpreendeu, enganou e amedrontou com sua descrição, até hoje pavorosa, da cena, logo no começo desse livro, em que o jovem Pip, Philip Pirip, se encontra perdido num pântano e em meio ao brouillard de sempre, visitando a tumba dos seus pais, é surpreendido por uma figura espectral portando correntes atadas aos pés. O jovem Pip ajuda a criatura se liberar de suas correntes e todos nós ficamos envolvidos naquele clima assombrado, mortos de medo de continuar a ler essa história bárbara que vai parecendo ser uma história de visagem. E é somente muito mais tarde que vamos descobrir que, na verdade, o fantasma era Abel Magwitch, um prisioneiro evadido, que irá presentar Pip, repentinamente, já depois do meio da história, com uma imensa fortuna.

Na minha compreensão, a zona de movimento das histórias de Dickens são, geralmente, esses espaços fronteiriços: fronteiras entre realidade e irrealidade, entre classes sociais, entre preconceitos, ideologias e a alegria de viver. Dickens, mais do que qualquer outro escritor, falou das fronteiras entre os mundos e mostrou como a maioria delas é inventada pelo capitalismo. E é por isso que Bakhtin, no seu “Questões de Literatura e de Estética”, coloca Dickens na sua relação de escritores que produzem “uma ruptura com as grandes realidades da vida”.

Autoreflexividade é a grande chave, o grande dispositivo, para romper as realidades. Que seria a grande literatura sem autoreflexidade?

Dickens o faz num tempo de radical construção de fronteiras. Nenhum tempo produziu mais fronteiras, no mundo, do que o século XIX. O tempo de Dickens é um tempo de fronteiras e Dickens produz a interpenetração entre elas. A Londres cosmopolita de Dickens era não só um mundo; era também um mundo de mundos. E por isso a nobre arte de atravessar fronteiras, possibilitada pela literatura, tinha um impacto tão grande. Aliás, abe perceber que essas fronteiras estão presentes, também, nos múltiplos interesses e atividades de Dickens: o teatro amador, o hipnotismo, os shows de magia, o jornalismo, o folhetim. Tudo isso eram coisas que desvelavam, transgrediam, uma determinada compreensão da realidade. Amo Dickens, sobretudo, porque ele descreve e transcende, por meio dessa autoreflexividade, fronteiras e realidades.

Populações Tradicionais na Amazônia

O curso que ofereço no Ppgcom, neste semestre será ministrado juntamente com o Prof. Jax Pinto, da UNIFESSPA e também com importantes convidados, Flávi Ribeiro, integrante da Associação de ribeirinhos da Ilha Sirituba, Jorge Neri e Jeni Almeida, camponeses do Assentamento Palmares II; Tamires Cardoso Teixa, coordenadora de Programas Comunitários da Associação de Moradores e Produtores do Quilombo de Abacatal; Atanagildo de Deus Matos, o Gatão, integrante do Conselho Nacional das Populações Extrativistas; Cacique Cátia Cilene, da Aldeia Akrâtikatêjê da matriz Gavião e de outros que ainda virão se somar nós.

No Programa, alguns tópicos igualmente muito importantes para pensar a Amazônia: Mapas antropológicos, históricos e literários das populações tradicionais da Amazônia; Histórias de vida e saberes ribeirinhos; Campesinato de fronteira e estratégias de reprodução social na Amazônia; Diálogos entre saberes tradicionais e vida urbana amazônica; Saberes das populações extrativistas e seu papel na preservação ambiental; Narrativas de vida e experiências dos povos indígenas na Amazônia; Saúde e comunicação da Amazônia: Experiências tradicionais e enfrentamentos da pandemia; Memória social das populações atingidas por barragens; Modos de habitar e de desabitar na Amazônia: práticas residenciais e expurgos territoriais; Saberes alimentares amazônicos, etc.

Inscrições para alunos da UFPA até 6a-feira e para ouvintes até a semana que vem.

O viajante literário em Londres 5: Dickens, homem de seu tempo

Chegamos a Dickens no meu turismo literário. Fã incondicional, vou falar muito sobre ele, incontido e reverente. Dickens é um grande mestre, grande entre os grandes. Das casas em que viveu, em Londres, a mais referente é 48 Doughty Street, em Camden, onde hoje se encontra o Charles Dickens Museum. Fácil chegar, entrar, ver, pensar…

Charles Dickens é geralmente associado à era vitoriana mas, tecnicamente falando, é anterior a ela, pois nasceu em 1812 e Vitória só chegou ao trono em 1837. Ou seja, Dickens viveu 25 anos, quase a metade da sua vida, sem ser vitoriano. Entendemos o que as pessoas querem dizer: é que Dickens representa, como ninguém, a Londres do século XIX e da segunda revolução industrial.

Mas, vejam; Dickens, quando pensava sobre si mesmo, sobre o que era sua literatura, via-se como um herdeiro dos romancistas ingleses do século XVIII, como Defoe, Fielfing, Goldsmith, autores que ele amava.

Mas Dickens é um escritor do seu tempo e transcende essas epocalidades. Nem todo os escritores são tão contemporâneos de sua época e nem todos dão, tão bem, a margem do seu contemporâneo.

Hoje em dia é mais fácil tentar inserir Dickens da era vitoriana, certo, mas penso que houve um tempo em que foi mais fácil incluir a rainha Vitória na contemporaneidade dickensiana…

Isso porque Dickens foi lido e amado pelo conjunto da sociedade britânica, que se reconheceu nela como poucas sociedades se reconheceram, em sua época, em alguma literatura. Nosso autor agradava à classe trabalhadora porque denunciava as condições miseráveis em que viviam. E agradava aos burgueses, porque sabia mostrar a sua “humanidade” e, assim, estabelecia um vínculo com eles. Isso dito, entende-se porque Dickens foi um escritor extremamente popular – provavelmente o mais lido no país no século XIX. Todo mundo o lia (ou escutava): do analfabeto, presente nas inúmeras leituras públicas da sua obra, à rainha Vitória, justamente e ninguém menos, sua fã incondicional.

Sim, e também Marx, que foi um leitor atento de Dickens, considerando que sua obra trazia exemplos e elementos fundamentais para entender o capitalismo. Com efeito, Dickens via a ficção na realidade, fazendo com que a observação se transformasse em processo romanesco com grande dinâmica, e nem todos os autores fazem isso. E ainda cabe considerar a imensa empatia dele pelos desviantes, o que fez com que fizesse descrições efetivamente etnográficas.

Marx, pois é. Da rainha Vitória a Marx. Ah, e Dostoievski também.

Sabem qual foi a primeira pergunta que esse grande autor russo fez, quando saiu da prisão?

“Tem um novo Dickens?”

Nesse aspecto da popularidade, está bem a frente de Balzac – que mencionei em outra crônica. Não que Balzac não fosse popular, mas de fato não era tão popular como Dickens. Se há um paralelo na literatura francesa, em termos de popularidade, certamente é Dumas.

E o que eu falava acima sobre sua contemporaneidade tem a ver, provavelmente, com a sensibilidade de Dickens para olhar para sua própria vida, sensibilizar-se sem autocomiseração e transformar isso em literatura.

Dickens foi capaz de descrever todos os estratos sociais, primeiramente, porque teve experiência de todos eles, da sua classe média de origem à pobreza e, dela, à riqueza. Certo, era um grande andarilho de Londres e de seus arredores e um grande curioso, mas tudo era mediado pela sua própria experiência de mundo.

Por vezes trágica…

Seu pai foi um pequeno funcionário da Marinha, o que permitia à família uma condição de classe média. Gastava um pouco mais do que ganhava, pequenas dívidas que foram se acumulando e gerando juros. Acabou sendo preso, o que levou a família a uma situação de grande pobreza. Para piorar, outras pessoas da família também foram presas, e Dickens passou a trabalhar, aos doze anos de idade, numa fábrica de graxa. O que ganhava era suficiente apenas para pagar a alimentação da família na prisão. E aí, de repente, tudo mudou: o pai do escritor recebeu uma inesperada herança, que permitiu que saldasse as dívidas e que a família se recompusesse.

Sim, o tema de herança e das soluções inesperadas, tão famoso na obra de Dickens e que é outro dos elementos que fazia com que sua escrita fosse amada no seu tempo.

Muito já disseram que foi esse trauma da infância que produziu o escritor. Pode ser. É evidente, quando lemos uma biografia de Dickens, a sua persistente dificuldade em se enquadrar numa das identidades convencionais da Inglaterra do seu tempo, seu eterno problema de pertencimento e, junto com ele, a dificuldade persistente em respeitar as normas vigentes.

Dickens e sua família saíram da pobreza, mas essa experiência se reflete em todos os meninos pobres que pululam em sua obra: David Copperfield, Oliver Twist, Jack Dawkins, Nicholas Nickleby, Philip Pirrip todos eles são o menino eterno Charles Dickens.

E daí se passa aos traumas da sua vida adulta, sobretudo os afetivos. De Maria Bidnel – a paixão de juventude, moça frívola e que não quis nada com nosso herói – a Catherine Hoggarthcom, sua esposa, e suas muitas irmãs, duas delas com grande importância na vida de Dickens, a menor, de quem ele era muito afeiçoado e que morreu aos 16 anos nos seus braços e a famosa Georgina, sua grande amiga, que ficou do seu lado no difícil divórcio do escritor depois de 22 anos de casamento.

Dickens morreu aos 58 anos. Sua época – e sua obra – imprimiram longamente a ideia que a Inglaterra faz de si e a ideia que o mundo faz dela. Foi o escritor da urbanização, da indústria e da perda dos velhos referenciais sociais. Foi o escritor que mais falou de instabilidade, mudança e fronteira numa sociedade que tinha uma verdadeira obsessão pela estabilidade. E, talvez justamente por isso, foi, numa sociedade rica de escritores, o que melhor permitiu, aos ingleses, uma voz psicanalítica que lhes dizia que era preciso conviver com a mudança, porque ela acontece.

Cartas ao Leitor 6: Kharkhov-casa, Odessa-mundo, exílio e literatura

A guerra da Ucrânia se processa – também – literariamente. Inclusive porque a literatura preserva a ponderabilidade, os valores, a alma dos lugares e, sobretudo, denuncia das mentias e ilusões. Kharkhov, bombardeada nos últimos dias, foi descrita, dentre outros, por Émmanuel Lévinas. Ele a conheceu no caminho do êxodo que o levou, a ela e a sua família, da Lituânia até a França. Kharkhov. Cidade muitas vezes referida em Totalité et Infini (1961). Lévinas imagina se fosse lá a sua casa. E casa, em Lévinas, significa muito mais que uma construção: “O papel privilegiado de uma casa não consiste em ser o fim da atividade humana, mas em ser a própria condição humana”.

O exílio é sem casa. O exílio sonha em recuperar a casa. Em ser-casa.

Cabendo considerar que “casa” significa, para Lévinas, ter lugar em um lugar, ser-lugar. Estar abrigado. Sonho dos exilados – como eu, inclusive, que nunca soube nem se tenho lugar na cidade em que habito.

Mas casa, para Lévinas, também significa abrigo, proteção.

A partir da sua casa”, assim compreendida, como abrigo, diz o filósofo, “o ser rompe com sua existência natural”.

Sim, toda casa uma ruptura, uma separação. Toda casa, quando abriga, quando protege, possui, fenomenologicamente, essa dupla condição: a de ser o vínculo com o lugar e a de ser ruptura com o lugar. A de ser de portas abertas e a de ser de portas fechadas.

Entre as paredes da casa se organiza o “recueillement” de consciência de que fala Lévinas: “porque o Eu existe quando se recolhe, quando se refugia entre as paredes de uma casa, de um abrigo”. E mais explica meu amigo Lévinas, dizendo que isso se dá porque “O homem se percebe no mundo como alguém que existe no ato de se recolher, no ato de se refugiar, empiricamente, em uma casa”.

O homem sempre está no mundo fazendo um movimento, sempre igual, de recolhimento, de retorno ao seu abrigo, a sua casa.

Estar abrigado tanto significa participar do lugar como se proteger do lugar.

E há lugares dos quais precisamos nos proteger. Belém, por exemplo, tal como Karkhov, a julgar pela etnografia fenomenológica que Lévinas fez dessa cidade.

Mas não Odessa, outra cidade ucraniana tristemente bombardeada por estes dias.

Certo, temos certo conhecimento geral sobre Odessa, mas não sobre Kharkhov – ou Carcóvia, em velho português. Odessa está no cinema e nos livros de história, mas Kharkhov, apesar de toda a sua história, é pouco notada e lembrada.

Kharkhov é casa, Odessa é mundo.

Kharkhov, que conheço de tanto que Lévinas falou sobre ela, tem, igualmente, muito passado. Kharkhov é a alma da Slobodskaya, região que se divide entre Ucrânia e Rússia, um pouco parecida com as cidades históricas de Minas Gerais, se for preciso encontrar um símile. Lugar cheio de passado, de história, de invenções linguísticas, de identidade, de segredos de família.

Ah, e Kharkhov também foi o centro, o núcleo efervescente da Associação Russa de Escritores Proletários, instituição fortíssima, que produziu conceitos que definiram o que era a literatura soviética, em seu tempo. Não é sem razão, portanto, que o maior museu de Kharkhov é o Museu da Literatura. O Único museu, no mundo inteiro, consagrado à literatura.

Ao contrário de Kharkhov, Odessa é mundo mais do que casa. Odessa é exterior, é uma dessas cidades públicas, com calçadas abrigadas da chuva, colunadas, avenidas cheias de árvores, imensos prédios públicos. Odesse é uma dessas cidades acaloradas, vivazes, cheias de vida. Uma cidade cheia de fantasia e de imaginação. Como Belém, por sinal.

Odessa é sua escadaria, retratada no Encouraçado Pontenkin, de Eisenstein, o primeiro grande filme da história, filmado em 1925.

Nestes dias tristes de guerra, quando Kharkhov-casa e Odessa-lugar vão sendo consumidos, vou, devagar, pensando na descrição que Políbio fez da história de Cipião Emiliano, encarregado por Roma de, naquele distante-próximo ano de 146, lamentando profundamente a sua missão mas executando-a, como bom soldado que era, destruir Cartago: delenda est… diziam e dizem…

Emmanuel Levinas – 

Fernando Marías

Imagem reproduzida do Americanpost News

Morreu aos 63, no dia 5 de fevereiro passado, o escritor basco Fernando Marías. Sua obra fica marcada por seu estilo centrado no diálogo e na escuta do outro, uma obra que refle plenamente o autor: sujeito elegante, cuidadoso com os detalhes, conversador fabuloso, cheio de humor e de inteligência. 

Romancista, novelista, roteirista, teatrólogo, Marías é um nome importante da literatura espanhola contemporânea, e isso desde que sua primeiro novela, “La luz prodigiosa” ganhou o prêmio Ciudad de Barbastro, em  1990. Recebeu muitos prêmios literários. “La luz prodigiosa”, parte do argumento de que o poeta Federico García Llorca não morreu, ao ser fuzilado pelos republicanos espanhóis em 1936, sendo socorrido por um mendigo, que o ajuda e o leva a um convento. Essa novela foi transforma em filma, dirigido por Miguel Hermonoso e musicado por Enio Morricone.

Marías também escreveu as novelas “Esta noche moriré”, “El mundo se acaba todos los días”, “Los Fabulosos Hombres Película”, “El vengador del Rif”, “La batalla de Matxitxako”, “La isla del padre” e “La mujer de las alas grises”. Com “El Niño de los coroneles” ganhou o importante prêmio Nadal, em 2001.  Tambémorganizou a coletânea “Frankenstein resuturado”, em 2019, uma homenagem ao centenário de morte de Mary Shelley. Escreveu também diversos roteiros para o cinema e algumas peças de teatro.

Seu último livro, “Arde este libro”, publicado no ano passado, tem o ar de uma  carta póstuma, ou de um testamento literário. Efetivamente, é um exercício confesional, uma literatura de expiação, no qual discute a relação entre literatura, memória e o ato de morrer.

Para quem se interessar em ver mais, segue o obituário de Marías publicado no El Pais.

Cartas ao Leitor 5

Bom dia,

E bem-vindxs ao tempo que os alunos não têm o que dizer. Para nós, professores, é o mal constante das gerações recentes: perguntamos se alguém têm comentários ou questões e somos açoitados por um lancinante silêncio. Claro que há exceções (raras) e que me refiro mais à graduação, porque no mestrado e doutorado as pessoas falam mais – talvez com a excessão dos que vêm diretamente da graduação, e, assim, dessa cultura tartamuda.

Distantes tempos em que se alugava o professor com perguntas e que, do ponto de vista dos alunos, era um triunfo quando se conseguia construir um argumento que mobilizava toda a sala de aula. Distantes tempos em que se escrevia dez páginas (alguns vinte) para cada resposta na prova, quando o limite era de três páginas para a resposta. Ou em que a gente, quando era aluno, trazia nossas leituras de fora do programa para “dialetizar” a aula. Meus tempos… e nem tão distantes assim.

Lamento, mas, de boa, tanto faz: se é assim que é, se é assim que eles precisam que seja, fazemos o melhor, certo? Claro, e sigo corrigindo as provas dos meus alunos, neste semestre. É a semana do ano dedicada a isso: corrigir provas e auferir conceitos.

Mas deixei 30% da avaliação para pontuá-los por sua participação em aula. E ela não houve. Ninguém teve dúvida, dúvida de verdade. Pontualmente, uns não entenderam um detalhe, um detalhezinho, porque eles entendem geralmente tudo. Pontualmente, eles comentaram algo, e creio que todas as vezes foi a partir de uma experiência própria e intuitiva, do tipo “eu sinto que”. Apesar da farta bibliografia disponibilizada, só leram o que eu mandei ler: não há mais o conceito de autonomia de pesquisa, de curiosidade, de vontade de saber.

Bem-vindos ao um mundo em que os alunos, além de não falarem, lêem superficialmente, quando lêem. E que lêem o que lhes é imposto.

Sigo tentando compreender esse mundo estranho, mas não há sociologias que me o expliquem. Há confabulistas, que dizem que isso se deve à internet e a uma cultura que mistura superficialidade com fragilidade na nova geração. Pode ser, mas as pesquisas que dizem isso são também superficiais. Há que considerar a extrema vulnerabilidade psicológicas das gerações mais recentes. Mas a que isso se deve? E eu gostaria muito de entender o que está acontecendo, porque sem entender não tenho como ajudar, ou adaptar meu trabalho para que ele funcione melhor.

De qualquer forma, é preciso sobreviver a esse estranho mundo. Nunca foi tão cansativo ser professor, mas é preciso sobreviver. Aqui e ali vamos experimentando para ver se eles ficam mais estimulados, independentes, seguros, interessados. Aqui e ali… pontualmente.

O viajante literário em Londres 4: Tennyson e Thackeray

Prossigo meu turismo literário em Londres. Parto a 9 Upper Belgravia Street, Belgravia, onde morou Alfred Tennyson (1809-1892). Conhecia bem o percurso, um de meus caminhos eventuais, numa região de boas pies and pints.

Tennyson. Cantabriano, platônico, assonante, atormentado Tennyson…

Efetivamente, fui conhecê-lo em Londres, lendo algo a seu respeito num jornal quotidiano. Fui ler sua obra mais falada, In Memoriam A.H.H., esse longo poema, escrito durante 17 anos, em homenagem a seu amigo, condiscípulo em Cambridge, Arthur Henry Hallam, noivo de sua irmã, falecido precoce e repentinamente de uma hemorragia cerebral.

Um poema estranho, mas que se torna compreensível em seu contexto e em seus propósitos: questionar a sociedade vitoriana e colocar em pauta os grandes temas da liberdade humana, inclusive a sexualidade, principalmente o tabu da homossexualidade, e, igualmente, a questão do agnosticismo. Não vamos, porém, atribuir-lhe bandeiras que ele não defendeu, mesmo porque era outro o contexto cultural.

No que tange ao seu agnosticismo, deve-se reconhecer haver, em Tenysson, uma relação dominante com o mundo natural, uma dinâmica ancestral que ele herda, muito forte na formação histórica da Inglaterra, de relação com a natureza. Isso produz um panteísmo de ordem mítica, sempre presente na sua escrita e isso afora a pura crítica da fé, na sua forma religiosa: “Existe mais fé na dúvida honesta (…) que em metade das religiões”, diz ele. 

Já no que tange à questão do homoerotsimo, é preciso perceber que no tempo de Tenysson ainda não havia, ao menos na Inglaterra, a associação da homossexualidade como uma figura identitária e social específica. Ademais, sabe-se muito a respeito da longa (de séculos) influência do platonismo cantabrígio (ou seja, referente à Universidade de Cambridge), concebido como amor casto, mas de devoção, entre os alunos dessa instituição.

Lí com muito interesse o poema The Charge of the light brigade – embora menos pela música de Iron Maiden de que pela Guerra da Criméia, sempre interessante para quem estudou comunicação. Nunca palavras inicias lembraram tanto o galope de cavalos partindo para o ataque, ainda crentes na vitória:

Half a league, half a league,

Half a league onward,

All in the valley of Death

Rode the six hundred.

Digam se a sonoridade desses versos não produzem galopes num campo de batalha. Tennyson ecoa Keats, como se sabe, contempla a natureza, busca a musicalidade da palavra, evoca as lendas do campo e da floresta e alitera tudo o que pode.  E nunca houve poeta mais assonante do que ele.

Bom, para concluir, há a mushroom pie do The Alfred Tennyson Pub, ali perto, no 10 Motcomb St. Experimentei-a depois da visita a sua casa.

E, não distante dali, alcancei 16 Young Street, Kensington, onde viveu o grande, o sensacional, o intrigante William Makepeace Thackeray (1811-1863) – que de fazedor de paz, apesar do nome, não possuía muito. Fachada térrea em branco, pavimento superior feito daquelas pedras que imitam tijolos, tão comum na vizinhança e a casa em frente a um pequeno parque de bairro. Mais tarde visitei sua morada posterior e eterna, seu túmulo em Kensal Green, o cemitério gótico londrino, vizinho de minha casa nessa cidade.

Bom, o que me interessa em Thackeray é sua influência sobre Machado de Assis. Uma influência discreta e mediada, certo, mas decisiva no que tange a “princípio da reserva” – depois explico.

Deixem que reúna elementos, antes, para explicá-lo. Em seu tempo, quando alguém se matriculava em Cambridge, seu nome era escrito num grande livro e seguido, quando não se vinha de uma linhagem nobre, com um cortante termo latino que excedia pela mácula: ne nobilitate. Creio que Thackeray observou profundamente essa marca de identidade, essa e outras, e que isso está na base da sua literatura. A Fogueira das Vaidades é um monumento discreto da desconstrução e à crítica da pretensa nobilitate. Nesse e em outros livros, a sua ironia é devastadora, e mais ainda porque possui reservas. Ah, as reservas de Thackerey… Ao não dizer tudo, diz mais ainda.

É assim que vejo a obra de Thackeray, como uma arte de eloquentes reservas.

Um outro exemplo mais formal e técnico disso ocorre quando o romance começa fazendo crer que sua personagem principal, em torno da qual a história caminhará é Amélia Sedeley, ou melhor Emily, como todos a chamam. Seguimos sua história e, lá pelas tantas, repentinamente, o narrador se dá conta de que “she wasn’t a heroine“. After all, after all… E Emily sai do centro, que passa a ser ocupado por Beck Sharp, o oposto da insossa Emily.

Penso que Thackay alegoriza, com essa mudança de foco narrativo, o próprio espírito do disse-me-disse, da fogueira das vaidades que sustenta seu romance. Quando li esse romance eu devia ter uns quinze anos de idade e achei essa mudança de foco narrativo um erro grotesco, uma vulgaridade literária inominável, mas hoje percebo do que Thackeray realmente estava falando.

Aos quinze anos acreditamos na voz que narra uma história e desacreditamos das vozes que narram essa voz narradora. Recordo que li com imensa má vontade o restante do livro e até acho que não cheguei a concluir a leitura. Não estou certo disso, mas tenho certeza de que pulei páginas e páginas, achando Thackeray um contra-autor, um des-autor, um canalha. Hoje, um pouco mais maduro, compreendo bem a sutileza do seu estilo e recuperei meu respeito por ele.

E, isto dito, voltemos ao que acima chamei de “princípio da reserva”. Trata-se daquilo que permite ao autor de se calar, repentinamente, depois de reunir os elementos para que as coisas sejam compreendidas. Trata-se do vai-de-si dos fatos agregados. Talvez, a diegese. Talvez, a hantologia.

Hoje acredito que a literatura mais incrível que há é a que fala das narrativas e dos silêncios que narram os fatos e os ruídos. Uma forma de prudência, de discrição, de generosidade mas, também… de ironia. E é por isso que compreendo o quanto Thackeray ecoa em Machado de Assis: ambos foram ne nobilitatem. Ambos possibilitaram os elementos para que o futuro implodisse o passado.

E ambos me fazem pensar a respeito de como a literatura é, em resumo, um dispositivo para que, sugerindo (ainda que discretamente) o presente, permita que o futuro imploda o passado.

Num tempo em que muitos autores supõem que dizer é explicitar, esclarecer, objetivar, mostrar, exibir, há uma grande lição na literatura de Thackeray (e de Machado de Assis): a literatura, antes, sugere, pisca os olhos, toca discretamente com uma pena.

Artigo do prof. Paulo Nunes sobre O Réptil Melancólico

O professor Paulo Nunes, da Universidade da Amazônia, publicou um artigo sobre meu livro O Réptil Melancólico na revista digital Variações, dedicada à literatura contemporânea. O texto, “O Réptil Melancólico: Narrar (e ler) na certeza de que ‘toda consciência é miserável’”, pode ser lido aqui, no site a revista.