O viajante literário em Londres 8: Jane Austen

Tudo já se falou sobre ela e todo mundo gosta dos seus romances, dos filmes neles baseados e da inner culture em torno da sua obra, eu inclusive. Então, vou direto aos pontos que me interessam mais.

Primeiramente, o fato de que, não sendo londrina – e tendo vivido bem pouco na capital – Austen conseguiu transformar Londres num verdadeiro personagem, coisa que muitos tentaram, mas que poucos – como Charles Dickens e Arthur Conan Doyle, além dela – conseguiram.

Segundo que, pertencendo ela mesma à gentry – essa pequena nobreza rural -, ela conseguiu transformá-la num outro verdadeiro personagem, coisa que muitos igualmente tentaram e que poucos – como Henry Fielding e Evelyn Waugh, além dela – conseguiram.

Terceiro, que a ironia austeniana (posso dizer isso?) é uma marca literária tão forte – e ao mesmo tempo tão discreta – que, com ela, Jane conseguiu transformar-se num personagem de suas próprias obras. Coisa que, ora, muitos também tentaram e poucos – como Geoffrey Chaucer e Oscar Wilde, além dela – conseguiram.

Austen nasceu no Hampshire, depois viveu em Southampton, voltou para o Hampshire, foi e voltou várias vezes a Londres, onde moravam seus irmãos, passando lá temporadas e, ficando doente, voltou em 1817 para morrer no seu Hampshire velho de guerra – mas na cidade de Winchester, primeira capital da Inglaterra – quando ainda não havia tal Inglaterra, mas os reinos de Mécia, Wessex etc.

Então, a cidade de Londres, ainda que personagem maior da obra de Austen, foi um lugar onde ela morou por temporadas. Mas posso seguir seu rastro.

Primeiramente, 10, Henrietta Street, onde residia Henry Austen, o irmão querido de Jane entre 1813 e 1814. A rua homenageia a rainha desse nome, esposa de Charles I. Bem próxima de Covent Garden, abrigava, desde sua criação, em 1634, a gente de comércio que ia enriquecendo nessas proximidades. Na segunda metade do século XIX começou a abrigar artistas e casas de edição. O número dez é um prédio branco, georgiano, de uns cinco andares indistinguível dos demais – a não ser pelo fato de que Jane Austen passou nele algumas noites.

O outro endereço da escritora que visitei foi 23 Hans Place, em Knightsbridge. Em 2019 o site MyLondon anunciava esse apartamento para aluguel: “Take a look inside the stunning flat Jane Austen once called home”… O prédio poligonal, de tijolos vermelhos e pequenas janelas brancas, que pertencia a Henry Austen, abrigou várias vezes sua irmã, nos anos de 1814 e 1815. Era Henry quem cuidava dos seus contratos editoriais e foi seu médico que trouxe o recadinho do Senhor Príncipe Regente. O prédio ocupa um endereço nobre, Knightsbridge fica entre Belgravia e Chelsea e tem vários parques nas proximidades. Já era assim no tempo de Jane Austen e o prédio por ela habitado fica a dois passos da Cadogan Street, que aparece em Pride and Prejudice.

Lamentavelmente, a carreira de escritora de Jane foi curta, como se sabe. Sense and Sensibility foi aceita por um editor em 1810 e foi publicada com um pseudônimo, ou melhor, como um acrônimo, ou um anacronômico: “By a Lady”. Recebeu boas críticas e deram à Lady um lucro de 140 libras esterlinas, algo muito bom para a época. Em 1813 saiu Pride and Prejudice, outro sucesso e, em 1814, Mansfield Park, que vendeu todos os exemplares em seis meses. Com o sucesso dessas obras, acabou-se revelando a identidade da autora.

O sucesso é indiscreto, como se sabe.

E a família de Austen também o era. Suas tias e sobrinhas fizeram que fizeram até revelar Jane ao grande público. E, pois bem, o próprio Príncipe Regente, o futuro George IV – que governava em nome de seu pai doente – tão encantado da obra de Austen, mas tão encantado mesmo da obra de Austen, mandou um recado por seu médico, que era também o médico que tratava o irmão de Jane durante uma doença: pedia que seu próximo livro fosse dedicado a ele, o Senhor Príncipe Regente…

Que coisa indiscreta, não? E invasiva. E Austen assim o fez. Em dezembro de 1815 foi publicada Emma, obra dedicada ao Senhor Príncipe Regente e um grande fracasso.

E me digam, de novo, se isso não parece coisa de um livro de Jane Austen!

Mentira, Emma também foi um sucesso. Eu só não queria perder a piada.

No ano seguinte saiu a segunda edição de Mansfield Park, que não logrou o mesmo êxito e Austen chegou mesmo a perder dinheiro. Não que tivesse ganho tanto assim, mas essas libras faziam a diferença na sua vida de moça solteira e de nobreza empobrecida. Ainda em 1815, Austen começou a escrever Persuasion e, em 1817, começou Sanditon, mas não conseguiu terminar nenhuma dessas obras: estava doente, e piorava a cada dia, a 18 de julho de 1817, exatos 205 anos do momento em que estou escrevendo estas linhas.

Autor: Fábio Horácio-Castro

Escritor, jornalista, pesquisador, sociólogo, etnógrafo, fenomenólogo, professor. Sou também Fábio Fonseca de Castro e Fábio de Castro da Gama. Conforme a ocasião, o nome.

Uma consideração sobre “O viajante literário em Londres 8: Jane Austen”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: