Cartas ao Leitor 7: A indevida apropriação da “alma russa” pela propaganda de guerra

Por todo lado se tem evocado a “alma russa” para explicar a invasão da Ucrânia. Sem desmerecer as lições da literatura, creio, no entanto, que a geopolítica seria mais interessante para essa explicação – notadamente a compreensão de que, por mais injustificável que seja a invasão da Ucrânia, os Estados Unidos, se servindo da Otan e manipulando o fraco governo ucraniano, efetivamente cancelou todas as saídas diplomáticas possíveis.

Certo, a “alma russa” está presente aí, também. Mas não a “alma russa” cruel e totalitária que desejam fazer valer, nestas horas de russofobia, e sim a “alma russa” calejada por um espírito de proteção e de resistência diante da insistência, tanto do Ocidente como do Oriente, de ameaçar sua soberania – por exemplo, a invasão da Rússia ou da URSS pela Suécia, pela Polônia, pela França, pela Alemanha por duas vezes e pelo Japão, ao longo dos últimos 300 anos.

Muita coisa me deixa indignado nessa história. Primeiramente, claro, a invasão Muita coisa me deixa indignado nessa história. A invasão da Ucrânia pela Rússia, claro. Mas, tanto quanto ela, a russofobia, essa guerra de enunciados, essa manipulação de ódios e seus efeitos econômicos e, é preciso dizer, o jogo político dos EUA/Otan de ir pressionando a Rússia até a guerra, talvez apenas para poder impor as tais sanções econômicas.

E, particularmente, dentro da manipulação russofóbica em curso, me indigna, particularmente, o tal discurso sobre a “alma russa”, revestido do mais puro funcionalismo, sobretudo quando utilizam Dostoiévsky para explcicitá-lo.

E por que usam Dostoiévsky? Ora, porque Dostoiévsky desenvolve personagens que surgem das entranhas mais miseráveis da vida para cometer toda sorte de crimes, mesuinharias e pecados.

Usando Dostoiévsky para falar da tal “alma russa” sugerem que toda a Rússia, todo o povo russo, procede tal como os seus personagens. Sugerem que a violência presente no submundo retratado por seus romances constitui a essência e mesmo a totalidade do que seria o povo russo, o que é um grande absurdo.

E o pior é que essa confusão, essa narrativa propositadamente errônea, está sendo repetida por todo lado, à exaustão, dia após dia, no jornalismo e emissões literárias, redes sociais, muito particularmente na programação da Radio France Culture mas em todos os grandes veículos de comunicação do dito “Ocidente”.

Bem entendido que não estou aqui para justificar uma invasão militar, mas para defender o bom senso e o respeito pela verdade. E cabe dizer que, se uma “alma russa” existe, ela com certeza não tem nada a ver com o espírito bélico. Antes, deveria ser buscada na religiosidade ortodoxa, centrada numa peculiar ideia de salvação e na longa história eslava, com todas as suas experiências de defesa ante a violência de conquista, vindas dos imperialismos da Ásia, Europa e América do Norte.

Autor: Fábio Horácio-Castro

Escritor, jornalista, pesquisador, sociólogo, etnógrafo, fenomenólogo, professor. Sou também Fábio Fonseca de Castro e Fábio de Castro da Gama. Conforme a ocasião, o nome.

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