O viajante literário em Londres 6: Dickens e as fronteiras do mundo

Dickens não nasceu em Londres, mas foi a síntese de Londres. E foi a síntese de uma época de autoreflexividade que tinha, em Londres, seu grande espaço de produção. A Inglaterra vitoriana tinha um imenso apetite por ficção e, nesse contexto, vários autores buscavam a independência financeira escrevendo num lugar que permitia, inclusive, espaço para mulheres autoras, como comprovam as irmãs Brontë, Jane Austen, Frances Burney e Maria Edgeworth. Nesse tempo as novelas publicadas em penny-paper e os folhetins de jornal podiam influenciar mais a opinião publica do que panfletos, e a literatura funcionava como uma espécie de voz reflexiva do debate, como o adversarial principle – essa voz constante da consciência, sempre autocrítica de si mesma, sempre em dúvida a respeito de nosssas certezas, que tanto falta aos nosso mundo.

Mas é certo que tudo isso tenha paralelos.  Síntese de Londres, ou de uma certa Londres, Dickens o foi, evidentemente. Mas sempre com paralelos. A autoreflexividade o demanda. Por exemplo, na eterna comparação entre a Londres de Dickens e a Paris de Balzac…

Ou na autoreflexividade que invadiu Londres, quando Dickens morreu. Nove de junho de 1870. A rainha Vitória entrou em prantos, por um lado. E, de outro, uma garotinha pobre que vendia frutas em Drury Lane, conta P. Collins em « The popularity of Dickens », publicano na Dickensian, número 70, indagou : « Isso quer dizr que Papai Noel também vai morrer ? ».

Era um sintoma. Os contos de natal de Dickens eram uma leitura obrigatória nos pubs, nos mercados, nas casas humildes e também nos castelos. Pelas bandas do East End – Houndsditch, Whitechapel, Aldgate, Spitalfields – na noite de natal, por um centavo se ganhava uma xícara de chá e o direito de ouvir a leitura desses contos. Londres lia pelos ouvidos. E enquanto o mundo católico frequentava a missa do Galo, Londres frequentava Charles Dickens.

Reflexividade é isso. Dickens doi um desvelador (um criador?) dos signos bárbaros da modernidade e do capitalismo. E nesse sentido Dickens, mais do que ninguém, cotejou a dicotonia das classes, da produção social da riqueza e da produção social da pobreza, mais do que ninguém – inclusive Balzac. Ninguém desenhou melhor o contraste tão precário entre « the purlieus of the rich » e « the slums of the poor ».

Ninguém descreveu tão bem os monstros que vagam nessa fronteira, capturando alimento ora de um lado, ora de outro. Aliás, nesse aspecto, cabe evocar André Maurois: “Je crois que l’aptitude pour créer des monstres est souvent le signe du grand romancier”. Ou seja: conhecemos os grandes romancistas por meio de sua capacidade de criar monstros.

Atividade particularmente fácil quando o espaço literário é a cidade de Londres, porque no meio do brouillard de Londres, as formas mais simples se tornam monstruosas.

E Dickens é um especialista nesse quesito. Dickens tem uma capacidade de justapor suas frases com uma rítmica que se desenvolve como a sensação de um labirinto. Uma hora cá e outra lá, de cada lado das muitas fronteiras da literatura.

E não só nas suas construções frásticas e parafrásticas. Igualmente nas tramas de suas histórias.

Jamais esquecerei do impacto profundo que foi, na minha vida, a leitura de The Great Expectations, quando Dickens me surpreendeu, enganou e amedrontou com sua descrição, até hoje pavorosa, da cena, logo no começo desse livro, em que o jovem Pip, Philip Pirip, se encontra perdido num pântano e em meio ao brouillard de sempre, visitando a tumba dos seus pais, é surpreendido por uma figura espectral portando correntes atadas aos pés. O jovem Pip ajuda a criatura se liberar de suas correntes e todos nós ficamos envolvidos naquele clima assombrado, mortos de medo de continuar a ler essa história bárbara que vai parecendo ser uma história de visagem. E é somente muito mais tarde que vamos descobrir que, na verdade, o fantasma era Abel Magwitch, um prisioneiro evadido, que irá presentar Pip, repentinamente, já depois do meio da história, com uma imensa fortuna.

Na minha compreensão, a zona de movimento das histórias de Dickens são, geralmente, esses espaços fronteiriços: fronteiras entre realidade e irrealidade, entre classes sociais, entre preconceitos, ideologias e a alegria de viver. Dickens, mais do que qualquer outro escritor, falou das fronteiras entre os mundos e mostrou como a maioria delas é inventada pelo capitalismo. E é por isso que Bakhtin, no seu “Questões de Literatura e de Estética”, coloca Dickens na sua relação de escritores que produzem “uma ruptura com as grandes realidades da vida”.

Autoreflexividade é a grande chave, o grande dispositivo, para romper as realidades. Que seria a grande literatura sem autoreflexidade?

Dickens o faz num tempo de radical construção de fronteiras. Nenhum tempo produziu mais fronteiras, no mundo, do que o século XIX. O tempo de Dickens é um tempo de fronteiras e Dickens produz a interpenetração entre elas. A Londres cosmopolita de Dickens era não só um mundo; era também um mundo de mundos. E por isso a nobre arte de atravessar fronteiras, possibilitada pela literatura, tinha um impacto tão grande. Aliás, abe perceber que essas fronteiras estão presentes, também, nos múltiplos interesses e atividades de Dickens: o teatro amador, o hipnotismo, os shows de magia, o jornalismo, o folhetim. Tudo isso eram coisas que desvelavam, transgrediam, uma determinada compreensão da realidade. Amo Dickens, sobretudo, porque ele descreve e transcende, por meio dessa autoreflexividade, fronteiras e realidades.

Autor: Fábio Horácio-Castro

Escritor, jornalista, pesquisador, sociólogo, etnógrafo, fenomenólogo, professor. Sou também Fábio Fonseca de Castro e Fábio de Castro da Gama. Conforme a ocasião, o nome.

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