Thiago de Mello (1926-2022)

O poeta Thiago de Mello, falecido ontem, aos 95 anos, em Manaus, foi um paradigma da literatura amazônica – e da brasileira. Na verdade, foi uma voz latino-americana e, talvez, também dela um paradigma. Da literatura amazônica, em primeiro lugar, porque foi com ele que se consolidou a noção de “poesia das águas”, ou de “pátria das águas”, tão importante para a sensibilidade literária na região, nas últimas décadas.

Paradigma, também, da literatura brasileira, e não apenas por sua importância na literatura amazônica (que não é a mesma coisa), mas por seu militantismo e sua politização. Como muitos de sua geração, Thiago de Melo soube aproximar poesia de política. Tornou-se uma voz maior, poderosa e catalizadora, da resistência de esquerda. A publicação do poema “Os Estatutos do Homem“, no calor da imposição do Ato Institucional Número 1 (AI-1), em abril de 1964, constituiu um dos mais importantes impactos de uma poesia sobre sociedade brasileira. Algo que só acontece muito raramente e mais raramente ainda quando se constitui como impacto popular, crítico e político.

O poema, escrito quando Thiago de Mello já estava no exílio chileno, teve o peso de um manifesto pela razão humana e a favor da solidariedade universal.

Justamente outra constante da sua obra e aquela que o torna, ainda, um paradigma da América Latina. Thiago de Mello foi uma das vozes principais da integração e da cooperação latino-americana e revestiu-a com uma perspectiva amazônica que resta muito forte – afinal, o bioma amazônico integra mais países latino-americanos de que qualquer outro bioma do continente.

Sua poesia esteve sempre a serviço da questão ambiental, da atenção para com a condição humana e das grandes causas e direitos sociais. E isso não quer dizer foi “produzida” para essas causas, mas sim que traduzia os mundo que essas problemáticas desvelam ou obscurecem.

Importante definição da sua visão de poesia Mello deu-a num depoimento ao DOI-Codi, no final de 1977, logo depois de retornar ao Brasil. Disse aos militares que acreditava na “conscientização da massa” por meio da “poesia revolucionária”. Ato contínuo, foi classificado, pelo coronel que tomava o seu depoimento como “delinquente confesso”.

Recomendo a leitura da entrevista que Thiago de Mello concedeu a Rôney Rodrigues, republicada ontem no site Outras Palavras e também a crônica de Bernardo de Mello Franco, em O Globo, sobre a sua prisão, no episódio famoso dos “8 da Glória”.

Autor: Fábio Horácio-Castro

Escritor, jornalista, pesquisador, sociólogo, etnógrafo, fenomenólogo, professor. Sou também Fábio Fonseca de Castro e Fábio de Castro da Gama. Conforme a ocasião, o nome.

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