O viajante literário em Londres 2: Coleridge e Keats

Prosseguindo minhas cartografias literárias em Londres, iniciadas na semana passada, confesso que busquei, em vão, a casa onde viveu Samuel Taylor Coleridge (1772-1834). Contaram seus biógrafos que ele habitou em Soho, 71 Berners Street. Fácil de achar e de chegar. Fui até lá, olhei, vi, procurei e não achei. Respirei os ares contíguos e fui embora. Pouco, mas o que era possível. De fato, não tinha a plaquinha azul, mas a encontrei, dias depois, por completo acaso, em outro endereço: 7 Addison Bridge Place, em South Kensington. Sim, é bem verdade que as pessoas moram em mais de uma casa ao longo da vida… E também soube que havia um terceiro endereço, a sua casa principal, no Devonshire, e que ela estava à venda! Era o Coleridge’s Cottage, 10 quartos, uma huge library, e 21 acre grounds. 7 milhões de £ibras. Aliás essa casa ainda não foi vendida e segue disponível, como acabo de perceber, e se alguém se interessar, podem vê-la aqui.

Not by any means, é claro. E nem pensar, também, em ir tão longe só para dizer que fui até lá, mas não importa. De resto, amo Coleridge. Colored, como seu nome me vinha à imaginação, numa vã promessa diegética, era para mim sinônimo de aventuras ultramarinas – Itália, Mediterrâneo, Marrocos, Índia… Não tanto, porque isso ficava como traço, na diegese projetada, porque Coleridge está, mesmo, mais para a Inglaterra brumosa e gótica.

Mas sabem do que gosto mais em Coleridge? Do fato de ele passar da política à ficção, e da ficção à poesia, e da poesia ao teatro e da lá ao jornalismo…

A obra que mais gosto de Coleridge? Fácil: The Rime of the Ancient Mariner, que conheci, olhem só como a leitura traça seu destino, depois que ouvi a música que a banda Iron Maiden fez dele – coisa que pode parecer improvável. Mas que é.

Curioso: acho que esse poema vinha de antes, mas não lembrava de tê-lo lido. Era como se ele me acampanhasse, parecia uma história de marinheiro de meu avô… Upon a painted ocean… day after day.

The Rime of the Ancient Mariner sempre me lembra Le Bateau Îvre, de Rimbaud… tal como os mares de meu avô. Ah e aquela canção francesa, Il était um petit navire, qui n’avait ja ja jamais navigué… Coleridge lembrava tantas coisas marítimas… Lembra tanto os mares de Mazagão, o mar Doce por eles trocados, as memórias de turbulentas navegações da família de minha mãe…

E de Coleridge a Keats.

Gosto menos de John Keats (1795-1821), que viveu em 10, Wentworth Place, Hampstead. Hoje, mais conhecida como 10, Keats Road, Hampstead. Norte de Londres. É a Keats House, que pode ser vista, para uma visita virtual, neste site, mas é bom avisar que ele nunca foi proprietário desse prédio, apenas viveu lá durante dois anos, em dois pequenos cômodos no térreo do imóvel. Ao longo de toda a vida Keats teve dificuldades financeiras e a tuberculose pleural que o matou, aos 25 anos, se deveu indiretamente a elas, constando a precariedade de sua alimentação e do aquecimento da casa.

O endereço é aberto ao público, mas estava fechado para reformas, quando andei por lá. Desconsolado, comprei suas poesias completas num sebo de Londres, mas meu filho Pedro leu-o mais que eu, acho. Keats é brilhante, mas na minha compreensão falta-lhe sal, sal de mar. Não alcanço a sua famosa sensualidade.

Passo batido por Keats. Talvez porque só consiga pensar em Keats junto com Byron e Shelley. Talvez porque ainda não tenha lido Keats realmente. Talvez porque, havendo sabido do impacto de Keats sobre Borges – e Borges é Borges – fiquei aguardando, sozinho, que algo acontecesse…

Mas nada, nunca, aconteceu.

Bom, verdade seja dita, Keats me acompanha, mesmo sem sal, desde que, indolente, peguei um livro dele na biblioteca da Universidade de Brasília, no remoto ano de 1993, e fui lendo, treslendo e acabei extraindo dele uma das epígrafes do meu livro A Cidade Sebastiana. Verdade seja dita, adoro Endymion, que lindo poema… que me forneceu uma epígrafe como…

A thing of beauty is a joy for ever:
Its loveliness increases; it will never
Pass into nothingness

Mencionei ao professor Benedito Nunes que essa epígrafe traduzia tudo o que eu desejava dizer em A Cidade Sebastiana e ele, sempre generoso (embora também condescendente e tendo mais o que fazer) não discordou.

Mas ainda não mereci Keats, suponho, como devia.

Autor: Fábio Horácio-Castro

Escritor, jornalista, pesquisador, sociólogo, etnógrafo, fenomenólogo, professor. Sou também Fábio Fonseca de Castro e Fábio de Castro da Gama. Conforme a ocasião, o nome.

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